A aproximação sucessiva, também denominada modelagem (shaping), é um procedimento de ensino fundamentado nos princípios da Análise do Comportamento que permite desenvolver habilidades novas ou ampliar repertórios comportamentais a partir de respostas que o indivíduo já consegue apresentar. Em vez de exigir a realização imediata de uma habilidade complexa, o profissional estabelece etapas graduais e reforça diferencialmente as respostas que se aproximam do comportamento-alvo. À medida que o repertório evolui, os critérios para o reforçamento são ajustados até que a resposta final seja alcançada (Cooper et al., 2020; Skinner, 1953).
Esse procedimento é especialmente relevante quando uma habilidade ainda não faz parte do repertório independente do aprendiz ou quando sua execução exige componentes que precisam ser desenvolvidos progressivamente. De acordo com Cooper et al. (2020), a modelagem envolve a seleção de respostas cada vez mais próximas do comportamento terminal, utilizando o reforçamento diferencial para favorecer mudanças graduais no desempenho. Portanto, não se trata apenas e dividir uma tarefa em partes, mas de organizar contingências de aprendizagem que fortaleçam aproximações sucessivamente mais precisas da habilidade pretendida.
Na prática clínica e educacional, esse princípio pode ser aplicado ao ensino da comunicação funcional, da escrita, das habilidades de autocuidado, das interações sociais e de atividades acadêmicas. Uma criança que ainda não consegue solicitar verbalmente um objeto desejado, por exemplo, pode inicialmente apresentar uma aproximação vocal ou outra resposta comunicativa funcional. Posteriormente, podem ser ensinadas formas progressivamente mais próximas do objetivo estabelecido, respeitando suas possibilidades comunicativas e considerando recursos como gestos, figuras e Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). O critério de avanço deve considerar a funcionalidade da resposta e as necessidades individuais, sem desvalorizar formas legítimas de comunicação.

A efetividade desse procedimento também é ilustrada por estudos experimentais. Em uma pesquisa com três crianças pré-escolares autistas, Koegel et al. (2010) compararam o reforçamento de aproximações vocais sucessivas com o reforçamento de tentativas consideradas razoáveis. Os resultados indicaram aquisição mais rápida das habilidades vocais na condição de modelagem. Embora o número reduzido de participantes limite a generalização dos achados, o estudo demonstra como a definição sistemática de critérios de aproximação pode contribuir para o ensino de repertórios comunicativos.
Para implementar a modelagem, é necessário definir operacionalmente a habilidade final, identificar o repertório inicial, estabelecer aproximações alcançáveis e selecionar reforçadores relevantes para o aprendiz. O profissional deve acompanhar os dados de desempenho e ajustar os critérios de acordo com a evolução observada. Se uma etapa estiver excessivamente difícil, pode ser necessário retomar uma aproximação anterior ou modificar as condições de ensino. A generalização para diferentes pessoas e ambientes, assim como a manutenção da habilidade, também deve ser planejada, pois o desempenho adquirido em uma situação específica não garante sua utilização espontânea em outros contextos (Cooper et al., 2020).

Na intervenção com crianças autistas, a utilização desse procedimento requer atenção à individualização do ensino, à motivação, ao assentimento e à dignidade do aprendiz. O objetivo não deve ser a adequação indiscriminada a expectativas externas, mas a ampliação de habilidades socialmente significativas que favoreçam autonomia, participação e comunicação. Dessa forma, ensinar por pequenos passos significa reconhecer o repertório atual da criança como ponto de partida e construir oportunidades para que novas aprendizagens ocorram de maneira gradual, funcional e respeitosa.
Conclui-se que a aproximação sucessiva constitui uma estratégia cientificamente fundamentada para o desenvolvimento de habilidades, sobretudo quando a resposta final ainda não ocorre de forma independente. Sua aplicação exige planejamento, reforçamento diferencial, análise contínua dos dados e critérios individualizados. Mais do que esperar que o aprendiz realize uma tarefa completa desde o início, o profissional organiza condições para que cada avanço relevante contribua para a construção de um repertório progressivamente mais complexo.
Referências
Cooper, J. O., Heron, T. E., & Heward, W. L. (2020). Applied behavior analysis (3rd ed.). Pearson Education.
Koegel, R. L., Openden, D., Fredeen, R., & Koegel, L. K. (2010). Is a reasonable attempt reasonable? Shaping versus reinforcing verbal attempts of preschoolers with autism. Journal of Behavioral Education, 19, 223–234. https://doi.org/10.1007/s10864-010-9118-4
Skinner, B. F. (1953). Science and human behavior. Macmillan.
Autor do post:
Laryssa Bonifácio – Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional e Coordenadora ABA





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