A Música e o Movimento: Um Caminho para Melhorar as Funções Cognitivas e o Comportamento no Autismo

Quando falamos sobre intervenções para crianças e jovens no Transtorno do Espectro Autista (TEA), a primeira imagem que vem à mente costuma ser a de uma terapia na mesa ou em um ambiente altamente controlado. No entanto, o corpo também precisa estar em ação para que a mente aprenda melhor.

Estudos recentes estão mostrando que combinar o corpo em movimento com o estímulo da música cria um ambiente incrivelmente rico para o desenvolvimento das crianças autistas. Mais do que diversão, essa união de ritmos e atividades físicas está provando ser uma ferramenta poderosa para melhorar o foco, a regulação emocional e reduzir os comportamentos repetitivos.

Para entender melhor como isso funciona, reuni as descobertas de dois estudos científicos sobre os efeitos das intervenções musicais e motoras no TEA. E a melhor parte: vamos ver se o horário em que a criança se exercita faz alguma diferença!

  • O Poder da Intervenção Dupla: Música e Movimento


Crianças autistas frequentemente apresentam um ritmo diferente em suas funções motoras e executivas (aquelas funções do cérebro responsáveis pela atenção, flexibilidade e resolução de problemas). A atividade física, por si só, é excelente para melhorar a coordenação e o humor. Mas, quando a música é adicionada à equação, o efeito se multiplica.

A música fornece pistas rítmicas e temporais externas. Ao invés de usar a música apenas como um som ambiente relaxante, os pesquisadores pediram que as crianças autistas sincronizassem seus movimentos (como pular, andar ou bater palmas) com o ritmo das canções (entre 90 e 120 batidas por minuto).

O resultado de 12 semanas desse treinamento, feito com crianças autistas entre 6 e 10 anos, foi notável:

Melhora nas Funções Cognitivas: As crianças que participaram da intervenção com música e movimento tiveram pontuações significativamente melhores nos testes que avaliam a flexibilidade mental, o processamento visual e a função executiva.

Redução de Comportamentos Repetitivos e Desregulados: Houve uma melhora significativa no controle motor e, mais importante, no controle emocional e afetivo das crianças. Elas conseguiram regular melhor as suas respostas frente a desafios.

Alegria e Participação: Um fator fundamental para qualquer aprendizado é a motivação. Os níveis de alegria (medidos pela escala PACES) dispararam nas crianças que participaram do grupo de música e movimento, mostrando que a intervenção é altamente prazerosa e promove engajamento ativo.

 

  •  Os Benefícios em Longo Prazo e para Adultos


Se a música e o movimento funcionam para as crianças, será que o mesmo acontece com os adultos? Um estudo anterior de longo prazo (com a duração de 52 semanas) analisou os efeitos de sessões semanais de musicoterapia interativa (cantando, tocando piano e bateria) em jovens adultos com autismo severo.

Os resultados confirmaram o poder da música. Houve uma melhora clínica global significativa (medida pelas escalas BPRS e CGI-I) nos pacientes adultos, além de um aprimoramento notável em suas habilidades musicais (como cantar e reproduzir ritmos). Curiosamente, grande parte desse progresso clínico ocorreu nos primeiros seis meses da intervenção, sugerindo que o cérebro tem uma “janela” intensa de absorção aos estímulos musicais ativos antes de estabilizar os ganhos.

Mas e o Horário? Faz Diferença Treinar de Manhã ou à Tarde?
Todos nós temos o que a ciência chama de ritmo circadiano – o nosso relógio biológico interno que afeta o nosso humor, níveis de energia e capacidade de concentração em diferentes horas do dia. Muitas pessoas se perguntam: “Será que existe um horário ideal para o meu filho autista fazer as terapias e exercícios?”

Os pesquisadores dividiram as crianças do programa de música e movimento em dois grupos: um realizava a intervenção às 9h00 da manhã e o outro às 16h00.

A conclusão foi tranquilizadora: o horário não fez diferença significativa.

As crianças do grupo da manhã e do grupo da tarde mostraram as mesmas melhorias nas funções cognitivas.

A redução nos comportamentos desregulados e estereotipados foi igualmente positiva em ambos os turnos.

A alegria e o prazer com a atividade foram idênticos.

Para pais e profissionais, essa é uma ótima notícia. Isso significa que podemos ter flexibilidade na hora de planejar a rotina terapêutica e escolar da criança, adaptando-a aos horários que melhor funcionam para a família, sem perder a eficácia da intervenção.

O corpo e a mente do seu filho trabalham em conjunto, e as nossas terapias também! Estimular o desenvolvimento de forma prazerosa e eficaz é o nosso maior objetivo.

Na nossa clínica, nós não olhamos apenas para o comportamento isolado, mas buscamos intervenções que unam regulação emocional, processamento sensorial e desenvolvimento cognitivo. Seja de manhã ou de tarde, o importante é oferecer o estímulo certo, do jeito certo. Entre em contato conosco e agende uma avaliação para descobrir como as nossas abordagens podem ajudar o seu filho a se desenvolver com mais alegria, flexibilidade e autonomia!

 

 

 

 

Referências
Boso, M., Emanuele, E., Minazzi, V., Abbamonte, M., & Politi, P. (2007). Effect of long-term interactive music therapy on behavior profile and musical skills in young adults with severe autism. The Journal of Alternative and Complementary Medicine, 13(7), 709-712.

Kanzari, C., Hawani, A., Mkaouer, B., Mrayeh, M., Marsigliante, S., & Muscella, A. (2025). Cognitive, social, and behavioral effects of music and motor intervention in children with autism spectrum disorder: the role of time of day. Frontiers in Pediatrics, 13:1683930.

 

 

Autor do post
Luiz Kennedy de Almeida Silva – Psicólogo (CRP:13/9162), Pedagogo especializado em Psicopedagogia, Coordenador ABA.

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