Resumo
É comum encontrar relatos de pessoas autistas que demonstram grande interesse por línguas diferentes daquela utilizada predominantemente em seu cotidiano. Algumas podem assistir a conteúdos em outros idiomas, memorizar palavras e expressões, reproduzir diferentes pronúncias ou buscar espontaneamente informações sobre sistemas linguísticos. Embora esse interesse seja observado na prática, não é possível afirmar que pessoas autistas, de maneira geral, apresentem uma preferência específica por línguas estrangeiras. A literatura permite, entretanto, discutir possíveis relações entre esse comportamento e algumas características frequentemente descritas no Transtorno do Espectro Autista (TEA), especialmente os interesses restritos e intensos, a busca por padrões, aspectos particulares do processamento da linguagem e o interesse por elementos específicos da comunicação. Estudos sobre bilinguismo e autismo também indicam que a exposição a mais de uma língua não produz, por si só, prejuízos adicionais ao desenvolvimento da linguagem. Este artigo discute essas possibilidades a partir da literatura científica disponível, diferenciando o interesse individual por idiomas da condição de ser bilíngue ou multilíngue.
Palavras-chave: autismo; Transtorno do Espectro Autista; linguagem; bilinguismo; interesses restritos; comunicação.
1. Introdução
Quem convive com pessoas autistas provavelmente já encontrou situações em que uma língua estrangeira passa a ocupar um espaço bastante significativo no repertório de interesses da pessoa. Inglês, japonês, coreano, espanhol e outros idiomas podem aparecer em músicas, desenhos, jogos, vídeos, aplicativos ou conteúdos sobre assuntos específicos. Em alguns casos, o interesse não fica apenas no consumo desses conteúdos: a pessoa passa a memorizar palavras, pesquisar seus significados, comparar pronúncias ou repetir expressões mesmo sem utilizar aquele idioma como principal meio de comunicação.
Essa observação pode levar a uma pergunta interessante: por que algumas pessoas autistas parecem se envolver tanto com outras línguas?
A resposta, entretanto, não é simples. Não existem evidências suficientes para afirmar que o autismo produza uma preferência geral por idiomas estrangeiros. O que a pesquisa permite fazer é aproximar esse comportamento de características já estudadas no transtorno. Entre elas estão os interesses restritos e intensos, a tendência de algumas pessoas a se envolverem profundamente com determinados temas, diferenças no processamento da linguagem e uma atenção particular a padrões sonoros, palavras e estruturas.
Também é importante separar duas situações diferentes. Uma pessoa pode aprender uma segunda língua porque vive em uma família bilíngue, frequenta uma escola com ensino de idiomas ou está inserida em um ambiente multilíngue. Outra pode desenvolver espontaneamente um interesse intenso por determinada língua sem que exista uma necessidade comunicativa relacionada a ela. Os dois fenômenos não são equivalentes.
A literatura sobre autismo e multilinguismo tem crescido nos últimos anos, embora ainda seja menor do que a produção científica sobre linguagem e autismo de maneira geral. As revisões disponíveis, porém, apresentam um resultado bastante consistente: não há evidências de que a exposição a mais de uma língua cause prejuízos adicionais ao desenvolvimento linguístico de crianças autistas.
2. O interesse intenso por línguas pode estar relacionado aos interesses restritos?
Uma das possibilidades para compreender o interesse intenso por idiomas está nas características relacionadas aos interesses restritos e repetitivos descritas no TEA. O DSM-5-TR inclui, entre os critérios diagnósticos do autismo, interesses altamente restritos e fixos, que podem apresentar intensidade ou foco incomuns.
Na prática, esses interesses podem assumir formas muito diferentes. Algumas pessoas se interessam profundamente por animais, mapas, astronomia, transporte, números, personagens, música ou determinados assuntos acadêmicos. Para outras, o objeto de interesse pode ser a linguagem.
Quando uma língua passa a ocupar esse lugar, é possível que o interesse ultrapasse o uso funcional da comunicação. A pessoa pode demonstrar satisfação em memorizar palavras, reconhecer diferentes sotaques, aprender sistemas de escrita ou comparar expressões de diferentes idiomas. O conteúdo linguístico torna-se, nesse caso, um tema de exploração em si mesmo.
Essa hipótese é especialmente interessante porque o interesse não precisa estar relacionado à necessidade de conversar naquela língua. Uma criança pode aprender dezenas de palavras em japonês, por exemplo, mesmo sem ter interlocutores japoneses e sem utilizar o idioma em situações cotidianas. O reforçamento pode estar associado ao próprio contato com o tema, à previsibilidade, à descoberta de novos padrões ou ao acesso a conteúdos preferidos.
Isso não significa que todo interesse intenso por idiomas seja necessariamente um interesse restrito relacionado ao autismo. Pessoas não autistas também podem desenvolver grande interesse por línguas, linguística, música ou culturas estrangeiras. O que importa, no contexto clínico, é observar o conjunto de características da pessoa e não utilizar um único comportamento como indicador diagnóstico.
3. A linguagem oferece muitos padrões para explorar
Outro aspecto que pode ajudar a compreender esse interesse está na própria estrutura das línguas. Elas apresentam padrões que podem ser observados, comparados e organizados: sons, sílabas, palavras, regras gramaticais, sistemas de escrita, pronúncias e diferentes formas de combinação entre elementos.
Algumas pessoas autistas demonstram interesse por sistemas e regularidades. Quando esse interesse encontra um domínio como a linguagem, o idioma pode oferecer inúmeras possibilidades de exploração. Aprender uma nova língua envolve descobrir relações entre sons e símbolos, memorizar vocabulário, identificar regras e perceber diferenças entre estruturas.
Essa característica não deve ser interpretada como uma habilidade obrigatória do autismo. O espectro é bastante heterogêneo e existem grandes diferenças entre as pessoas. Ainda assim, a busca por padrões pode ser uma hipótese útil para compreender por que determinados indivíduos encontram nas línguas um campo particularmente interessante.
A pesquisa sobre linguagem no autismo também demonstra que o processamento linguístico não é uniforme entre as pessoas autistas. Gernsbacher et al. (2016), ao revisarem a literatura sobre linguagem e fala no autismo, destacam a diversidade existente nos perfis linguísticos, questionando a ideia de que características como ecolalia ou determinadas formas de produção verbal sejam exclusivas do transtorno.
Essa diversidade é importante porque evita uma explicação simplista. Não existe um único “modo autista de processar idiomas”. Há diferentes perfis linguísticos e diferentes maneiras pelas quais uma pessoa pode se relacionar com a linguagem.
4. Sons, pronúncia e características da fala
Em alguns casos, o interesse por outra língua parece estar menos relacionado ao significado das palavras e mais à maneira como elas soam.
Uma pessoa pode gostar de ouvir determinado idioma, reproduzir seu sotaque ou repetir frases mesmo sem utilizar aquelas expressões em uma conversa cotidiana. Isso pode chamar a atenção de familiares e profissionais, principalmente quando a pronúncia em uma segunda língua parece mais elaborada do que seria esperado pelo repertório comunicativo espontâneo.
A literatura sobre linguagem no autismo apresenta estudos sobre ecolalia, prosódia e outras características da fala. A ecolalia, por exemplo, corresponde à repetição de palavras ou enunciados previamente ouvidos e pode assumir diferentes funções comunicativas. Gernsbacher et al. (2016) destacam que a ecolalia não deve ser interpretada simplesmente como uma característica sem função ou como um fenômeno exclusivo do autismo.
Essa discussão é relevante quando uma pessoa repete expressões em outro idioma. A repetição pode representar diversão com os sons, prática de pronúncia, reprodução de um trecho favorito, participação em uma brincadeira ou até uma forma de comunicação. Portanto, antes de considerar essa fala como “sem função”, é necessário observar o contexto em que ocorre.
Pesquisas recentes também continuam investigando diferenças na prosódia e nas características acústicas da fala no autismo. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026, por exemplo, reuniu 40 estudos sobre prosódia e qualidade vocal em pessoas autistas e encontrou evidências de diferenças em alguns parâmetros, embora os resultados entre estudos não sejam completamente uniformes.
Esses dados não demonstram que pessoas autistas prefiram línguas estrangeiras, mas ajudam a compreender por que características sonoras da fala podem ser relevantes para determinados indivíduos.
5. Quando o idioma se torna um interesse especial
Existe uma diferença importante entre aprender uma língua e desenvolver um interesse intenso por ela.
Uma criança pode aprender inglês na escola e utilizar algumas palavras durante as atividades. Outra pode começar a pesquisar espontaneamente o idioma, assistir vídeos em inglês, decorar listas de palavras, perguntar sobre traduções e passar longos períodos explorando conteúdos relacionados à língua.
Nesse segundo caso, o idioma pode funcionar como um interesse especial.
A intensidade desse envolvimento pode variar bastante. Algumas pessoas se interessam por uma língua específica durante determinado período; outras mantêm esse interesse por anos. Também é possível que o idioma esteja associado a outro interesse. Uma criança que gosta muito de determinado desenho pode aprender palavras em japonês porque assiste à animação nesse idioma. Outra pode se interessar por coreano por causa da música. Nesse caso, língua e interesse principal acabam se fortalecendo mutuamente.
Isso ajuda a explicar por que o idioma nem sempre aparece isoladamente. Muitas vezes, ele faz parte de uma rede de interesses que inclui músicas, personagens, jogos, países, culturas, escrita e conteúdos audiovisuais.
6. E o bilinguismo? Ele prejudica a linguagem no autismo?
Durante muito tempo, famílias de crianças autistas receberam orientações para evitar a exposição a mais de uma língua. A preocupação era que uma segunda língua pudesse aumentar as dificuldades de comunicação já presentes no desenvolvimento. A literatura científica disponível atualmente não sustenta essa ideia.
Drysdale et al. (2015) realizaram uma revisão sistemática sobre crianças autistas provenientes de famílias bilíngues. Os estudos analisados não encontraram evidências de que o bilinguismo produzisse efeitos negativos adicionais sobre o desenvolvimento da linguagem. Os autores também destacaram que decisões relacionadas ao uso de línguas devem considerar as características individuais e o contexto linguístico da família.
Uma revisão mais recente, realizada por Gilhuber et al. (2023), reuniu 22 estudos sobre crianças autistas multilíngues. Os autores também não encontraram evidências de que a exposição a mais de uma língua prejudique as habilidades de comunicação. Em vários aspectos, as crianças multilíngues autistas apresentaram perfis semelhantes aos de crianças autistas monolíngues, e alguns estudos apontaram possíveis vantagens associadas ao multilinguismo.
Resultados semelhantes aparecem em uma revisão sistemática publicada em 2024, que analisou 12 estudos envolvendo 328 crianças autistas, sendo 169 bilíngues e 159 monolíngues. A conclusão foi de que o bilinguismo não parece acrescentar dificuldades ao desenvolvimento da linguagem em crianças autistas a partir dos três anos.
Portanto, é importante não confundir uma possível dificuldade de linguagem associada ao autismo com a presença de mais de um idioma. O segundo idioma não deve ser automaticamente considerado a causa de dificuldades que já fazem parte do perfil comunicativo da criança.
7. Quando a preferência por outra língua pode ser uma forma de comunicação
Outro aspecto que merece atenção é o fato de que a escolha de uma língua também pode estar relacionada à forma como a pessoa se sente mais confortável para se expressar.
Um estudo de caso descrito na revisão de Gilhuber et al. (2023) observou uma criança autista bilíngue que utilizava a alternância entre mandarim e inglês de acordo com o contexto e suas próprias preferências. Outro estudo citado pelos autores identificou uma criança autista bilíngue que demonstrava preferência por receber instruções em espanhol, sua língua utilizada em casa.
Esses exemplos são importantes porque mostram que a escolha de uma língua não deve ser interpretada automaticamente como algo aleatório ou como uma simples repetição. Ela pode estar relacionada ao contexto, à familiaridade, à preferência ou à função daquela comunicação.
Por isso, quando uma criança utiliza espontaneamente palavras ou frases em outro idioma, vale perguntar: em que situações isso acontece? Com quem? Depois de qual antecedente? O que acontece depois? A pessoa está tentando pedir algo, comentar, brincar, reproduzir uma música, chamar atenção ou simplesmente explorar aquele repertório?
A análise desse contexto pode oferecer informações muito mais úteis do que simplesmente classificar o comportamento como “mania de falar inglês”, por exemplo.
8. O que a ciência ainda não consegue afirmar
Apesar do crescimento da literatura sobre autismo e multilinguismo, ainda existem lacunas importantes. Gilhuber et al. (2023) observaram que muitos estudos excluíram crianças com deficiência intelectual, necessidades complexas de comunicação ou exposição a mais de duas línguas. Isso significa que os resultados disponíveis ainda não representam toda a diversidade existente dentro do espectro autista.
Além disso, a maior parte das pesquisas investiga crianças que crescem em ambientes bilíngues. Isso é diferente de estudar pessoas autistas que, vivendo em um ambiente predominantemente monolíngue, desenvolvem espontaneamente um interesse intenso por uma língua estrangeira.
Essa diferença é importante. A ciência já possui evidências razoáveis para afirmar que crescer em um ambiente bilíngue não prejudica, por si só, o desenvolvimento linguístico de crianças autistas. Já a pergunta sobre por que uma determinada pessoa autista desenvolve um interesse intenso por inglês, japonês, coreano ou outro idioma ainda não possui uma resposta científica única.
É possível relacionar esse fenômeno a interesses restritos, busca por padrões, características do processamento linguístico, preferência por sons ou conteúdos específicos e reforçamento associado às experiências com aquela língua. Mas essas explicações ainda devem ser tratadas como hipóteses, e não como características diagnósticas do autismo.
9. Considerações finais
O interesse intenso por outras línguas pode fazer parte do repertório de algumas pessoas autistas, mas não deve ser entendido como uma característica universal do transtorno. A literatura disponível permite pensar nesse comportamento a partir de diferentes aspectos do desenvolvimento autista, especialmente a presença de interesses intensos, a relação com padrões e sistemas e as particularidades individuais no uso e processamento da linguagem.
Ao mesmo tempo, os estudos sobre bilinguismo apresentam uma conclusão bastante importante: não há evidências de que a exposição a duas ou mais línguas, por si só, prejudique o desenvolvimento linguístico de crianças autistas. Pelo contrário, as pesquisas mais recentes apontam que crianças autistas podem desenvolver repertórios multilíngues sem que isso represente uma dificuldade adicional.
Na prática, isso significa que uma língua estrangeira pode ser muito mais do que um conteúdo escolar. Para algumas pessoas, ela pode se transformar em um interesse especial, uma fonte de prazer, uma forma de explorar padrões, um acesso a conteúdospreferidos ou até uma possibilidade de comunicação.
Por esse motivo, quando uma pessoa autista demonstra interesse intenso por outro idioma, talvez seja mais produtivo compreender esse interesse do que tentar eliminá-lo. Palavras em inglês podem ser utilizadas para ampliar vocabulário; músicas em outro idioma podem favorecer atividades de linguagem; sistemas de escrita podem ser incorporados a propostas pedagógicas; e conteúdos relacionados à língua podem funcionar como ponto de partida para novas aprendizagens.
O interesse, nesse caso, deixa de ser visto apenas como algo que precisa ser controlado e pode se tornar uma porta de entrada para diferentes experiências de aprendizagem e comunicação.
Referências
Drysdale, H., van der Meer, L., & Kagohara, D. (2015). Children with autism spectrumdisorder from bilingual families: A systematic review. Review Journal of Autism andDevelopmental Disorders, 2, 26–38. https://doi.org/10.1007/s40489-014-0032-7
Gernsbacher, M. A., Morson, E. M., & Grace, E. J. (2016). Language and speech in autism. Annual Review of Linguistics, 2, 413–425. https://doi.org/10.1146/annurev-linguistics-030514-124824
Gilhuber, C. S., Raulston, T. J., & Galley, K. (2023). Language and communication skills in multilingual children on the autism spectrum: A systematic review. Autism, 27(6), 1516–1531. https://doi.org/10.1177/13623613221147780
Garrido, D., López, B., Carballo, G., & de la Iglesia, M. (2024). Bilingualism andlanguage in children with autistic spectrum disorder: A systematic review. Neurología(English Edition), 39(1), 84–96. https://doi.org/10.1016/j.nrleng.2023.12.007
Autor do post
Laryssa Bonifácio – Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional e Coordenadora ABA





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