Imagine uma pessoa com medo intenso de aranhas. Podemos entregar uma aranha para ela imediatamente e esperar que permaneça na situação. Também podemos começar com um desenho, passar para fotografias, vídeos, uma aranha dentro de um recipiente e, finalmente, chegar ao contato direto. A condição final pode ser semelhante, mas o caminho percorrido até ela é muito diferente.
A segunda alternativa ilustra um princípio utilizado extensivamente na Análise do Comportamento: modificar gradativamente algum aspecto da situação até alcançar uma condição que inicialmente produziria esquiva, erro, recusa ou comportamento interferente.
Essa lógica aparece na exposição a estímulos temidos, no ensino de habilidades, na retirada de ajuda, no aumento da quantidade de trabalho, na tolerância à espera, na introdução de alimentos e até na passagem de esquemas densos de reforçamento para condições mais próximas da vida cotidiana.
O que caracteriza uma mudança gradativa?
Uma mudança gradativa envolve a alteração planejada e progressiva de alguma dimensão relevante de uma contingência. Existe uma condição inicial que a pessoa consegue enfrentar ou na qual consegue responder, uma condição terminal socialmente
importante e uma sequência de mudanças entre as duas.
Portanto, apresentar a mesma tarefa repetidamente durante várias semanas não constitui, por si só, uma mudança gradativa. É necessário identificar o que está sendo alterado: distância, intensidade, duração, complexidade, esforço, quantidade de respostas, ajuda disponível, atraso ou frequência do reforçamento, por exemplo.
Kincaid organizou os procedimentos de mudança gradual da Análise do Comportamento em três grandes categorias: mudanças nos estímulos discriminativos, no requisito de resposta e no reforçamento.
Mudanças nos estímulos
Nesse grupo, alguma propriedade do estímulo é alterada progressivamente. Podemos começar com estímulos muito diferentes entre si e reduzir essa diferença aos poucos, tornar um estímulo gradualmente mais parecido com aquele encontrado no ambiente natural ou retirar progressivamente uma dica.
Entre as dimensões que podem ser modificadas estão:
| ● distância ou proximidade; | ● textura; |
| ● tamanho; | ● duração da apresentação; |
| ● intensidade; | ● quantidade de estímulos presentes; |
| ● volume sonoro; | ● semelhança com o estímulo encontrado no ambiente natural; |
| ● brilho ou contraste; | ● previsibilidade; |
| ● cor; | ● saliência ou intensidade de um prompt. |
Aqui aparecem procedimentos como esvanecimento de estímulos, modelagem de estímulos, esvanecimento de prompts e esvanecimento de scripts.
Também podemos alterar a proximidade ou a intensidade de um estímulo aversivo. Em um estudo clássico, Shabani e Fisher trabalharam com um jovem autista que havia evitado coletas de sangue durante mais de dois anos. A lanceta foi apresentada inicialmente a 61 centímetros de seu dedo e aproximada em etapas sucessivas. A permanência da mão era reforçada. Ao final, ele permitiu coletas diárias de sangue, inclusive realizadas por sua mãe e em outro ambiente.
Nesse caso, a variável modificada foi a distância entre a lanceta e o dedo. Em outros procedimentos de exposição, poderiam ser alteradas a duração do contato, a intensidade do estímulo, seu grau de imprevisibilidade ou sua semelhança com a condição terminal.
Mudanças no requisito de resposta
Em outros procedimentos, o ambiente pode permanecer relativamente estável, enquanto se modifica aquilo que a pessoa precisa fazer.
As dimensões modificadas podem incluir:
| ● topografia da resposta; | ● variabilidade; |
| ● duração; | ● esforço necessário; |
| ● frequência ou taxa; | ● número de respostas exigidas; |
| ● latência; | ● quantidade de componentes de uma cadeia; |
| ● força ou intensidade; | ● complexidade da atividade; |
| ● precisão; | ● tempo de permanência na tarefa. |
A modelagem por aproximações sucessivas é um exemplo evidente. Inicialmente, reforçamos uma resposta que já faz parte do repertório da pessoa e alteramos progressivamente o critério até chegar à resposta terminal. Podemos reforçar vocalizações cada vez mais parecidas com uma palavra, aumentar o tempo de uso de uma máscara, exigir movimentos progressivamente mais precisos ou ampliar a variedade das respostas emitidas.
A análise de tarefas e o encadeamento aplicam essa lógica ao ensino de atividades complexas. Uma tarefa como escovar os dentes, preparar um lanche ou organizar o material escolar é dividida em componentes menores. A dimensão alterada pode ser a quantidade de passos realizados com independência, até que a pessoa execute a cadeia completa.
O esvanecimento de demandas também modifica o requisito de resposta. Podemos começar solicitando uma tarefa antes da pausa e, conforme o desempenho se mantém, aumentar para duas, três ou mais tarefas. Também podemos ampliar a duração do trabalho, aumentar sua complexidade ou reduzir progressivamente o tempo disponível para concluí-lo. Em um estudo de Gerow e colaboradores, o treino de comunicação funcional reduziu o comportamento-problema com e sem esvanecimento de demandas,
mas a inclusão do esvanecimento produziu maior conclusão das tarefas.
Mudanças no reforçamento
Depois que uma nova resposta é ensinada, nem sempre é possível manter indefinidamente as mesmas condições de reforçamento utilizadas no início
Entre as dimensões que podem ser alteradas gradativamente estão:
| ● frequência ou densidade do reforçamento; | ● qualidade ou preferência do reforçador; |
| ● quantidade de respostas exigidas; | ● probabilidade de reforçamento; |
| ● intervalo entre oportunidades de reforçamento; | ● duração dos períodos de indisponibilidade; |
| ● atraso até a apresentação do reforçador; | ● quantidade de fichas exigidas para uma troca; |
| ● magnitude ou quantidade do reforçador; | ●critério de desempenho necessário para produzir a consequência. |
| ● duração do acesso; |
No treino de comunicação funcional, por exemplo, uma solicitação apropriada costuma produzir acesso imediato ao reforçador nas primeiras etapas. Porém, na vida cotidiana, nem todo pedido pode ser atendido imediatamente. O tratamento precisa preparar a pessoa para esperar, tolerar períodos de indisponibilidade e realizar outras atividades antes de obter o que solicitou.
O esvanecimento do esquema pode aumentar gradativamente o atraso, o número de respostas exigidas ou o período durante o qual o reforçador permanece indisponível. Também pode reduzir a frequência, a magnitude ou a duração do reforçamento, desde
que a resposta permaneça estável.
O reforçamento diferencial também pode envolver mudanças gradativas. Em um DRO, o intervalo necessário sem a resposta-alvo pode aumentar de 10 para 20, 30 ou 60 segundos. Em um DRA, uma resposta alternativa inicialmente reforçada em todas as
oportunidades pode passar para um esquema mais intermitente. Em um DRL, o critério pode exigir taxas progressivamente menores da resposta. Os critérios da própria resposta alternativa também podem ser modelados.
Isso não significa que todo reforçamento diferencial seja gradativo. Um DRA, DRI ou DRO pode ser implementado com critérios fixos. A gradualidade aparece quando os critérios, intervalos, requisitos ou condições de reforçamento são modificados sistematicamente.
Uma mesma dimensão física pode aparecer em categorias diferentes. A duração pode se referir ao tempo de apresentação de um estímulo, ao tempo durante o qual uma resposta deve ser mantida ou ao período de acesso ao reforçador. A classificação depende do componente funcional da contingência que está sendo alterado.
Mudanças gradativas diante do medo e da esquiva
A exposição graduada talvez seja o exemplo mais intuitivo dessa tecnologia.
Considere novamente o medo de aranhas. Uma hierarquia poderia incluir:
1 Observar o desenho de uma aranha.
2 Ver fotografias.
3 Assistir a vídeos.
4 Observar uma aranha dentro de um recipiente.
5 Permanecer próximo ao recipiente aberto.
6 Aproximar a mão.
7 Permitir que a aranha permaneça sobre a mão.
Na exposição graduada, a pessoa percorre condições progressivamente mais difíceis. Ela não precisa estar completamente relaxada nem esperar que a ansiedade desapareça antes de avançar. O objetivo pode ser permanecer na situação, reduzir respostas de esquiva, testar previsões e aprender que consegue agir mesmo diante do desconforto.
A inundação pertence à mesma família geral de procedimentos, mas começa diretamente em uma condição de alta intensidade. No exemplo anterior, a pessoa poderia iniciar o tratamento segurando a aranha. A exposição costuma ser prolongada e limita-se a
oportunidade de escapar em função do medo, sempre dentro de condições previamente consentidas.
Já a dessensibilização sistemática, em sua forma clássica, combina três componentes: treinamento de relaxamento, construção de uma hierarquia e exposição progressiva enquanto a pessoa procura manter a resposta de relaxamento. Wolpe interpretava o
relaxamento como uma resposta incompatível com a ansiedade, capaz de produzir inibição recíproca e contracondicionamento.
Assim, a diferença pode ser resumida da seguinte maneira:
1 Exposição graduada: contato progressivo com condições cada vez mais difíceis.
2 Inundação: contato direto com uma condição de alta intensidade.
3 Dessensibilização sistemática: exposição progressiva combinada sistematicamente com relaxamento.
Esses procedimentos compartilham parte de sua função clínica, mas não são equivalentes.
O que se aprende durante a exposição?
Historicamente, a exposição foi explicada principalmente por extinção e habituação. A pessoa permaneceria diante do estímulo até que a resposta de medo diminuísse. Modelos contemporâneos acrescentaram uma interpretação importante. A associação original entre o estímulo e o perigo pode continuar existindo. A exposição estabelece novas aprendizagens que competem com ela: “a consequência prevista pode não acontecer”, “consigo permanecer mesmo sentindo medo” ou “posso lidar com o que acontecer”.
Essa interpretação ajuda a explicar por que o medo pode retornar em determinados ambientes ou depois de algum tempo. Também mostra que a redução completa da ansiedade durante a sessão não é uma condição obrigatória para que tenha ocorrido aprendizagem.
Em termos operantes, a fuga e a esquiva frequentemente produzem alívio imediato. Esse alívio pode reforçar negativamente a esquiva. A exposição reduz a oportunidade de obter alívio por meio da resposta habitual e permite contato com outras contingências. Respostas de aproximação, comunicação e permanência podem ser diferencialmente reforçadas.
Um cuidado conceitual é necessário. O estímulo temido pode funcionar como estímulo condicionado eliciador, operação motivadora ou antecedente aversivo. Por isso, nem toda exposição graduada deve ser descrita automaticamente como esvanecimento de estímulo discriminativo. A classificação depende da função da variável que está sendo manipulada.
Por que preferir procedimentos graduais?
A progressão gradual apresenta vantagens clínicas, éticas e práticas importantes.
Primeiro, ela permite iniciar o tratamento em uma condição desafiadora, mas ainda manejável. Quando duas alternativas podem produzir resultados semelhantes, reduzir o sofrimento desnecessário representa uma vantagem relevante.
Segundo, os passos intermediários permitem construir repertórios de aproximação. O profissional pode reforçar olhar, aproximar-se, tocar, permanecer por mais tempo, realizar uma ação específica e tolerar variações. Em vez de avaliar apenas se a pessoa conseguiu ou não enfrentar a condição final, o procedimento ensina as respostas necessárias para chegar até ela.
Terceiro, a graduação produz informações úteis. Ela permite descobrir se a dificuldade está relacionada à distância, duração, intensidade, textura, imprevisibilidade, ruído, pessoa presente ou quantidade de trabalho. Com esses dados, o profissional pode dividir uma etapa, repeti-la, avançar mais rapidamente ou saltar passos desnecessários.
Quarto, condições iniciais menos intensas podem reduzir a probabilidade de agressão, autoagressão, fuga perigosa ou abandono. Isso é especialmente importante quando a manutenção da situação terminal exigiria bloqueio físico, contenção ou exposição prolongada à extinção de fuga.
Quinto, a progressão facilita a participação da própria pessoa na intervenção. Ela pode ajudar a construir a hierarquia, escolher entre caminhos possíveis, comunicar desconforto e influenciar o ritmo do avanço. Em crianças e pessoas com comunicação limitada, sinais não vocais de assentimento e retirada de assentimento também precisam ser considerados.
Gradualidade, escolha e previsibilidade podem colaborar para a construção de um tratamento mais seguro e socialmente válido.
Gradual é sempre melhor?
Seria tentador concluir que passos menores são invariavelmente superiores. A literatura não sustenta uma conclusão tão ampla.
Um procedimento gradual pode ficar lento demais, manter a pessoa indefinidamente em condições fáceis ou criar dependência de prompts, relaxamento, presença do terapeuta e outros sinais de segurança. Se a condição relevante nunca for realmente alcançada, o tratamento terá boa aparência e pouca utilidade.
Na exposição, hierarquias rigidamente lineares também não são obrigatórias. Um estudo preliminar de Jacoby e colaboradores comparou exposição gradual e exposição com intensidade variável. Os dois grupos melhoraram e não houve diferença significativa entre eles após o tratamento. Isso sugere que variar a intensidade e retornar a etapas mais difíceis pode ser tão importante quanto avançar sempre em linha reta.
O mesmo debate aparece no esvanecimento de esquemas de reforçamento. A progressão denso-para-magro é amplamente utilizada, mas pode exigir muitas sessões. Procedimentos com sondagens do esquema terminal permitem identificar quais passos podem ser pulados. Em alguns casos, a passagem direta para um esquema terminal também foi mais eficiente. A escolha depende da gravidade do comportamento que pode reaparecer, do risco envolvido, da experiência da equipe e da capacidade de manter intervenção com segurança.
Portanto, a graduação deve ser orientada por dados. Passos menores podem ser importantes quando existe risco de escalada, sofrimento elevado ou abandono. Saltos maiores podem ser testados quando o comportamento é manejável e os dados indicam que a pessoa dispõe do repertório necessário.
Quanto da ABA envolve mudanças gradativas?
O relatório do National Clearinghouse on Autism Evidence and Practice identificou 28 práticas baseadas em evidências para crianças, adolescentes e jovens adultos autistas a partir de 972 artigos publicados entre 1990 e 2017.
Em uma reclassificação didática e ampliada, consideramos que 24 dessas 28 práticas são empregadas em intervenções ABA, ainda que várias delas também sejam utilizadas por outras áreas.
Entre essas 24 práticas:
1 Sete foram classificadas como diretamente relacionadas a mudanças gradativas: reforçamento diferencial, instrução direta, prompting, reforçamento, autogerenciamento, análise de tarefas e atraso temporal.
2 Treze foram classificadas como indiretamente relacionadas: intervenções baseadas em antecedentes, comunicação aumentativa e alternativa, momentum comportamental, ensino por tentativas discretas, treino de comunicação funcional, modelação, intervenção naturalística, intervenção implementada pelos pais, intervenção mediada por pares, treino de habilidades sociais, intervenção apoiada por tecnologia, videomodelação e suportes visuais.
3 Quatro não apresentaram relação gradual necessária: extinção, avaliação funcional do comportamento, interrupção e redirecionamento de respostas e narrativas sociais
Com esse critério, 20 das 24 práticas, ou 83,3%, apresentam alguma relação direta ou indireta com mudanças gradativas.
Esse percentual precisa ser interpretado com cautela. A divisão entre relação direta eindireta foi criada para organizar a discussão. Ela não é uma classificação oficial de Kincaid nem do NCAEP. Também não significa que 83,3% das intervenções ABA aplicadas
no mundo utilizem graduação. O cálculo mostra apenas quantas categorias do relatório podem incorporar mudanças graduais de maneira relevante.
Como planejar uma boa mudança gradativa?
Um planejamento adequado precisa responder a algumas perguntas:
1 Qual é a condição terminal realmente necessária?
2 Que dimensão será modificada?
3 Qual ponto inicial permite sucesso sem tornar a atividade irrelevante?
4 Que respostas serão reforçadas?
5 Quais dados determinarão avanço, manutenção ou retorno?
6 A pessoa consegue comunicar desconforto, pedir pausa e participar das decisões?
7 Existem passos que podem ser testados ou pulados?
8 O repertório será generalizado para diferentes pessoas, materiais e ambientes?
A condição terminal também precisa ser examinada. Ensinar tolerância não significa exigir submissão a dor evitável, risco injustificado ou demandas sem função social relevante. O objetivo deve ser ampliar autonomia, comunicação e participação em atividades importantes para a própria pessoa.
Pequenos passos precisam levar a algum lugar
Procedimentos graduais permitem construir mudanças complexas a partir de respostas que já estão disponíveis. Eles podem reduzir erros, favorecer aproximação, aumentar segurança e produzir oportunidades frequentes de reforçamento.
Entretanto, dividir uma tarefa em etapas não garante automaticamente uma boa intervenção. Os passos precisam alterar uma dimensão funcionalmente relevante, seguir critérios baseados em dados e conduzir à condição terminal. Também precisam preservar segurança, assentimento e possibilidade de comunicação.
A melhor progressão não é necessariamente a que possui mais etapas. É aquela que oferece o apoio necessário no início, avança na velocidade permitida pelos dados e termina com uma habilidade útil fora da situação de ensino.
Grandes mudanças podem ser construídas em pequenos passos. O tamanho de cada passo, porém, continua sendo uma decisão clínica.
Referências
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Evidence-based practices for children, youth, and young adults with autism. Frank Porter Graham Child Development Institute, University of North Carolina at Chapel Hill. Relatório
Autor do post
Dr. Robson Faggiani – Analista do Comportamento, Psicólogo (CRP 13/8413), Especialista em Terapia Comportamental e Cognitiva, Mestre e Doutor em Psicologia Experimental, BCBA-D, QBA.





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