A ansiedade de separação na infância é uma experiência emocional comum em determinadas fases do desenvolvimento. Muitas crianças demonstram desconforto, medo ou insegurança ao se afastarem de seus cuidadores principais, especialmente em contextos novos ou diante de mudanças na rotina. Essas reações, quando proporcionais a idade e ao momento de vida, fazem parte do processo natural de construção da segurança emocional e do vínculo afetivo.
A ansiedade de separação ocorre quando a criança vivencia sofrimento significativo diante da separação real ou antecipada das figuras de apego, como pais ou cuidadores. Esse sofrimento pode se manifestar por meio de choro intenso, resistência em permanecer em outros ambientes, preocupações excessivas com a segurança dos adultos ou dificuldade para dormir sozinha. Em muitos casos, esses comportamentos são transitórios e diminuem à medida que a criança desenvolve maior previsibilidade e confiança no ambiente.
Ansiedade de separação e desenvolvimento emocional
Durante a infância, especialmente nos primeiros anos, a criança ainda está aprendendo a compreender a permanência das pessoas e a regular suas próprias emoções. A separação pode ser percebida como uma ameaça, pois a noção de tempo, distância e retorno ainda está em construção. Situações como início da escola, mudanças familiares ou alterações na rotina podem intensificar essas respostas emocionais, sem que isso represente, necessariamente, um quadro clínico.
Quando a ansiedade merece atenção
A ansiedade de separação passa a ser um sinal de alerta quando o sofrimento é intenso, persistente e interfere de forma significativa na rotina da criança e da família. Dificuldade constante para frequentar a escola, recusas frequentes em se separar dos cuidadores, queixas físicas recorrentes e prejuízo no sono podem indicar a necessidade de avaliação profissional. Nesses casos, a ansiedade deixa de cumprir uma função adaptativa e passa a limitar o desenvolvimento e a autonomia da criança.
Fatores que podem intensificar a ansiedade
A intensidade da ansiedade de separação pode ser influenciada por diferentes aspectos do contexto emocional e mental da criança, tais como:
- Mudanças bruscas na rotina diária
- Conflitos familiares frequentes ou ambiente emocional instável
- Separação dos pais ou alterações significativas na dinâmica familiar
- Falta de previsibilidade no dia a dia
- Excesso de proteção por parte dos cuidadores
- Insegurança emocional no ambiente em que a criança está inserida
- Dificuldades relacionadas a autoestima e confiança
Esses fatores podem aumentar a sensação de ameaça percebida pela criança e dificultar o enfrentamento das separações, reforçando comportamentos de dependência e evitação.
O papel dos adultos no manejo da ansiedade
A forma como os adultos respondem às reações da criança é fundamental. Validar os sentimentos, preparar a criança para as separações, manter rotinas previsíveis e transmitir segurança emocional são estratégias que auxiliam no fortalecimento da confiança. Ao mesmo tempo, é importante evitar comportamentos que reforcem o medo, como permitir que a criança evite constantemente situações de separação ou demonstrar ansiedade excessiva diante desses momentos.
Vínculo seguro e autonomia
O vínculo seguro se constroi quando a criança percebe que pode contar com um adulto disponível, consistente e emocionalmente previsível. Isso significa que suas necessidades emocionais são reconhecidas, acolhidas e respondidas de forma adequada, o que gera uma sensação de segurança. A partir dessa segurança, a criança se sente mais confiante para explorar o ambiente, interagir com outras pessoas e enfrentar novas situações.
Ter um vínculo seguro não significa evitar limites, frustrações e desafios. Pelo contrário, os limites fazem parte desse processo, pois ajudam a criança a compreender regras, organizar seu comportamento e lidar com pequenas frustrações de forma gradual. O que diferencia o vínculo seguro e a forma como esses limites são apresentados: com firmeza, previsibilidade e acolhimento emocional.
Quando a criança vivencia esse tipo de relação, ela aprende que pode se afastar do cuidador e, ainda assim, permanecer emocionalmente segura, pois confia que o adulto estará disponível quando necessário. Essa experiência fortalece a autonomia emocional e favorece a capacidade de lidar com separações, mudanças e desafios do dia a dia de maneira mais adaptativa e menos ansiógena.
Quando procurar ajuda profissional
A busca por acompanhamento profissional é indicada quando a ansiedade gera sofrimento intenso, prejuízo funcional ou quando a família se sente insegura sobre como ajudar. A intervenção adequada contribui para a compreensão das necessidades emocionais da criança, orienta os adultos e favorece o desenvolvimento de estratégias mais eficazes para o enfrentamento da ansiedade.
Referências
American Psychiatric Association. Manual diagnostico e estatistico de transtornos mentais DSM 5.
Bowlby, J. Apego e perda: a natureza do vinculo.
Castillo, A. R. G. et al. Transtornos de ansiedade na infancia e adolescencia.
Stallard, P. Terapia cognitivo comportamental para criancas e jovens.
Nelsen, J. Disciplina positiva para adolescentes.
Autor do post:
Joice Silva – Psicóloga (CRP: 13/9917), pós-graduada em Intervenção ABA para Autismo e Deficiência Intelectual, Coordenadora ABA.





0 comentários