Muitas vezes, quando se pensa em intervenções comportamentais, a imagem que vem à mente é a de ensinar habilidades práticas básicas: escovar os dentes, pedir água, ou reduzir comportamentos de risco. Mas o que acontece quando a criança cresce, ganha fluência verbal e começa a ter que lidar com a ansiedade, o bullying, o medo de falhar ou a confusão avassaladora de suas próprias emoções?
É exatamente nesse ponto que entra o DNA-V.
E para responder a pergunta que talvez esteja passando agora na sua cabeça, caro leitor: sim, o DNA-V pode (e deve!) ser usado na ABA. Ele é uma ferramenta revolucionária que atua como uma ponte entre a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e a psicologia positiva.
Vamos mergulhar profundamente para entender o que é essa sopa de letrinhas e como ela tem o poder de transformar a vida de jovens, sejam eles atípicos ou neurotípicos.
O Que é o DNA-V?
O DNA-V não é um currículo rígido com passos numerados para serem decorados, mas sim um modelo de flexibilidade psicológica criado especificamente para crianças e adolescentes. O objetivo principal dele não é fazer o jovem “parar” de sentir tristeza ou ansiedade (porque isso é impossível) mas sim ensiná-lo a lidar com esses desafios e sentimentos de uma forma que não paralise o seu desenvolvimento.
A sigla representa as quatro peças fundamentais de como nos relacionamos com o mundo e com nós mesmos:
D – Discoverer (O Descobridor): É a nossa capacidade natural e evolutiva de explorar e testar o mundo. Quando uma criança tenta montar um bloco de um jeito diferente, ou quando um adolescente tenta puxar assunto com um grupo novo, eles estão usando o Descobridor. No autismo, muitas vezes o Descobridor fica “escondido” pelo medo do erro ou pela necessidade extrema de rotina.
N – Noticer (O Observador): É a habilidade de pausar, olhar para dentro e olhar para fora. É notar “o que estou sentindo no meu corpo agora?” ou “o que está acontecendo no ambiente?”, sem reagir imediatamente de forma impulsiva. É criar um “espaço” interno onde sentimentos difíceis podem vir e ir embora sem que a pessoa seja dominada por eles.
A – Advisor (O Conselheiro): É a nossa voz interna. O comportamento verbal (nossos pensamentos, julgamentos e regras) que tenta, a todo custo, nos salvar de perigos e de aprender por “tentativa e erro”. O problema? O Conselheiro costuma ser muito pessimista e rígido. Ele diz coisas como: “Não tente falar com eles, você vai parecer estranho”. Ele é útil para nos impedir de atravessar a rua de olhos fechados, mas pode ser um tirano quando nos impede de viver.
V – Values (Os Valores): É o coração do modelo. O “V” envolve descobrir o que realmente importa para aquele jovem. Que tipo de amigo ele quer ser? O que ele ama fazer? Os Valores funcionam como uma bússola que dá direção, ajudando o indivíduo a usar o Descobridor, o Observador e o Conselheiro de forma flexível e útil.
Como o DNA-V se Encaixa na ABA?
Para entender essa integração, é preciso lembrar que a ciência do comportamento não parou no tempo. O DNA-V é fortemente fundamentado na Ciência Comportamental Contextual (CBS) e nos princípios clássicos do condicionamento operante.
Em vez de focar apenas no comportamento motor publicamente observável, o DNA-V permite que a terapia utilize princípios científicos sólidos para trabalhar com o comportamento verbal e privado do indivíduo. Ele analisa a função dos pensamentos (como as regras do Conselheiro afetam o que fazemos) e ensina o jovem a alterar a forma como ele reage a essas regras, sem necessariamente tentar “apagar” o pensamento.
Como Isso Transforma a Terapia no Autismo?
A introdução do DNA-V na terapia de pessoas no espectro autista, especialmente aquelas com nível 1 de suporte e boa fluência verbal, causa uma mudança de paradigma gigantesca:
De “Cumprir Demandas” para “Seguir Propósitos”: Em vez da terapia apenas tentar extinguir um comportamento de esquiva (como o jovem se recusar a ir para um evento), o foco muda para acionar os Valores. A ação passa a ser vista não como uma obrigação imposta pelo adulto, mas como um caminho para algo que o próprio jovem valoriza (como se conectar com alguém ou exercitar uma habilidade que ele gosta).
Lidando com a Rigidez Psicológica: Muitas pessoas autistas sofrem intensamente porque levam o Conselheiro (suas regras verbais internas e padrões rígidos) muito a sério. O DNA-V ajuda o indivíduo a notar: “Ah, esse é o meu Conselheiro dizendo que as coisas têm que ser feitas exatamente dessa forma. Mas eu posso usar meu Observador para notar o desconforto que isso me gera e chamar meu Descobridor para tentar algo levemente diferente hoje”.
Habilidades Sociais Genuínas: Ao aprender a observar seus próprios sentimentos sem julgamentos severos, o jovem começa a reconhecer a influência de sua própria história nas interações atuais, o que facilita incrivelmente o desenvolvimento de empatia, compaixão e a construção de amizades reais.
Autonomia e “Força Flexível”: O objetivo final da terapia não é fazer o jovem parecer “normal”, mas sim ajudá-lo a desenvolver o que os criadores do modelo chamam de “força flexível”. É a profunda capacidade de persistir nas coisas importantes que ele valoriza e de mudar os comportamentos que estão apenas tornando a vida dele pior.
Conclusão
Integrar o DNA-V às práticas comportamentais é dar um passo muito além da mera adaptação de rotina. É entregar nas mãos do jovem as ferramentas da flexibilidade psicológica, para que ele possa navegar pelas complexidades da vida não porque “alguém mandou”, mas porque ele tem clareza de para onde sua bússola de valores está apontando.
Referências
BYRNE, Gary; SHERLOCK, Clara. A systematic review of the use of Discoverer, Noticer, Advisor-Value (DNA-V) model for children and young people with mental health difficulties. Journal of Contextual Behavioral Science, p. 100973, 2025.
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and commitment therapy: The process and practice of mindful change (2nd ed.).
Auto do post:
Luiz Kennedy de Almeida Silva – Psicólogo (CRP:13/9162), Pedagogo especializado em Psicopedagogia, Coordenador ABA





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