Nos últimos anos, muitos pais passaram a se preocupar mais com o tipo de conteúdo que as crianças consomem. É comum observar que as próprias crianças se interessam espontaneamente por desenhos muito estimulantes, com ritmo rápido, cores intensas e mudanças frequentes de cena. Esses programas costumam circular bastante entre colegas e acabam se tornando parte da cultura infantil.
Ao mesmo tempo, cresce entre pais e profissionais do desenvolvimento infantil a preocupação em incluir também conteúdos mais tranquilos na rotina das crianças. Desenhos com histórias mais longas, ritmo narrativo mais lento e diálogos claros oferecem experiências diferentes de atenção, compreensão e interação.
A proposta não é excluir completamente os conteúdos populares, mas equilibrar diferentes tipos de estímulo. Esse equilíbrio permite que a criança tenha acesso a narrativas mais calmas e estruturadas sem perder o contato com aquilo que faz parte do universo social das outras crianças.
Conteúdos com ritmo narrativo mais lento
Alguns programas infantis são construídos com uma narrativa mais gradual, com menos cortes rápidos de cena e maior foco nas interações entre personagens. Esse formato permite que a criança acompanhe melhor o desenvolvimento da história e compreenda com mais clareza as relações entre ações, emoções e consequências.
Entre os exemplos frequentemente citados estão Pequeno Urso (Little Bear), Franklin, Bluey, Clifford e Daniel Tiger’s Neighborhood. Esses desenhos costumam apresentar episódios com começo, desenvolvimento e resolução de conflitos, além de diálogos próximos da linguagem cotidiana. Muitas das situações retratadas envolvem experiências comuns da infância, como brincar com amigos, lidar com frustração ou resolver pequenos conflitos.
O formato narrativo e a qualidade linguística do conteúdo podem influenciar processos cognitivos importantes. Em um estudo experimental publicado na revista Pediatrics, Lillard e Peterson (2011) avaliaram o impacto imediato de diferentes tipos de programas televisivos em crianças de quatro anos. Após nove minutos de exposição, as crianças que assistiram a um desenho com ritmo de edição muito rápido apresentaram desempenho inferior em tarefas de funções executivas — como memória de trabalho e controle inibitório — quando comparadas às que assistiram a um programa de narrativa mais lenta.
Outro estudo, conduzido por Linebarger e Walker (2005), analisou a relação entre tipos específicos de programas televisivos e desenvolvimento de linguagem em crianças pequenas. Os autores observaram que a exposição a determinados programas com linguagem clara e narrativa estruturada estava associada a melhores resultados de linguagem quando comparada a conteúdos com menor qualidade linguística.
Esses resultados ajudam a compreender por que muitos profissionais recomendam incluir, na rotina das crianças, programas que oferecem histórias mais previsíveis, diálogos claros e desenvolvimento narrativo mais gradual.
O papel dos desenhos populares
Ao mesmo tempo, muitos conteúdos consumidos pelas crianças fazem parte de um repertório cultural compartilhado entre pares. Personagens e histórias aparecem nas conversas da escola, nas brincadeiras e nas interações cotidianas.
Programas como Patrulha Canina, Peppa Pig, Miraculous Ladybug e Pokémon, além de conteúdos relacionados a jogos populares como Minecraft, frequentemente fazem parte desse repertório cultural infantil.
Esses universos narrativos acabam funcionando como referências comuns entre as crianças. Muitas brincadeiras começam a partir de personagens conhecidos, episódios específicos ou jogos compartilhados. A partir dessas referências, as crianças criam narrativas próprias, inventam jogos simbólicos e constroem interações sociais.
Por essa razão, afastar completamente a criança desses conteúdos pode acabar reduzindo oportunidades de participação em conversas e brincadeiras com colegas.
A importância da mediação dos adultos
Outro fator importante para compreender o impacto da mídia infantil é a forma como os adultos participam desse processo.
Quando pais ou cuidadores assistem junto com a criança e conversam sobre o que está acontecendo na história, o conteúdo audiovisual deixa de ser apenas um estímulo passivo e passa a se tornar um contexto de interação. Perguntas sobre os personagens, sobre suas emoções ou sobre as consequências de suas ações ampliam as oportunidades de linguagem e reflexão.
Uma revisão publicada na revista Pediatrics destaca que a interação entre adultos e crianças durante o consumo de mídia digital está associada a melhores resultados de aprendizagem quando comparada ao consumo passivo de conteúdo (Anderson & Subrahmanyam, 2017).
Encontrando um equilíbrio
A escolha de conteúdos infantis raramente precisa ocorrer em termos de exclusão total de um tipo ou de outro. Programas com narrativa mais tranquila podem oferecer oportunidades importantes para acompanhar histórias completas, compreender interações sociais e desenvolver linguagem. Ao mesmo tempo, desenhos populares fazem parte da cultura infantil contemporânea e podem facilitar conversas, brincadeiras e interações sociais.
Buscar um equilíbrio entre esses dois tipos de conteúdo permite que a criança tenha acesso a diferentes formas de narrativa e estímulo. Assim, ela pode desfrutar de histórias mais estruturadas e calmantes, ao mesmo tempo em que participa das referências culturais compartilhadas com seus pares.
Referências
Anderson, D. R., & Subrahmanyam, K. (2017). Digital screen media and cognitive development. Pediatrics, 140(Supplement 2), S57–S61.
Lillard, A. S., & Peterson, J. (2011). The immediate impact of different types of television on young children’s executive function. Pediatrics, 128(4), 644–649.
Linebarger, D. L., & Walker, D. (2005). Infants’ and toddlers’ television viewing and language outcomes. American Behavioral Scientist, 48(5), 624–645.
Autor do post
Me. Amanda de Oliveira – Psicóloga (CRP: 13/9360), Pós Graduada em Clínica Analítico Comportamental, mestre em Psicologia Social.





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