Por que nem todo ABA é igual? 7 lições surpreendentes do Autism Partnership Method para uma terapia mais humana

O “ABA” de um profissional pode diferir drasticamente do de outro em termos de qualidade, compaixão e eficácia. O Autism Partnership Method (APM) surge justamente para resgatar a essência da análise do comportamento: uma ciência viva, sensível e profundamente humana. Abaixo, exploramos sete lições que mostram por que este método está transformando o que entendemos por tratamento de excelência.

    1. O Julgamento Clínico não é subjetividade, é ciência em tempo real

No APM, o “julgamento clínico” não é um palpite; é uma habilidade técnica refinada. Enquanto alguns temem que ele seja subjetivo, o método o trata como um modelo de decisão análogo ao de médicos ou pilotos de elite, que precisam processar múltiplas variáveis em segundos.

O aplicador não olha apenas para o acerto ou erro. Ele analisa variáveis sutis em tempo real:

– Comportamento não-verbal: O franzir de sobrancelhas, o sorriso, a tensão corporal ou o relaxamento no assento.

– Comportamento verbal: Não apenas o que a criança diz, mas o tom de voz e o volume utilizados.

– Funções dinâmicas: Ao contrário da visão tradicional, o APM entende que o porquê de um comportamento (a função) é dinâmico e mutável. Não podemos confiar apenas em uma avaliação funcional feita meses atrás; o terapeuta deve avaliar o “porquê” agora.

“O julgamento clínico descreve um modelo de tomada de decisão derivado do campo médico que ‘combina teoria científica, experiência pessoal, perspectivas do paciente e outros insights’.” (Redelmeier et al., 2001, p. 358).

 

    1. O fim da “Ditadura do Protocolo”

Em muitas clínicas, o terapeuta é escravo de uma pasta de papéis. Ele segue um protocolo de ajuda (prompt) ao pé da letra ou repete exatamente a mesma instrução dez vezes, independentemente da reação da criança. No APM, a principal fonte de controle para as ações do terapeuta deve ser o comportamento do aluno, e não um manual estático.

O terapeuta tem a discrição necessária para ajustar a intervenção no momento: decidir quando dar uma ajuda, qual reforçador terá mais impacto agora e quando recuar. Quando o foco sai do papel e vai para a conexão com a criança, a terapia deixa de ser mecânica para se tornar um diálogo fluido.

 

    1. Currículo com propósito (A visão de “Big Picture”)

Não basta ensinar uma criança a empilhar blocos porque isso está em um teste de desenvolvimento. O APM defende que cada objetivo deve ter um propósito autêntico. Para isso, o método equilibra constantemente a visão de curto e longo prazo:

– Small Picture (O agora): Esta habilidade será útil para a criança na próxima semana?

– Big Picture (O futuro): Esta habilidade será benéfica para o aluno daqui a 20 anos?

O foco está em criar independência real e ampliar o poder de escolha do indivíduo, em vez de apenas “passar em testes”. Se o currículo não contribui para que o aluno viva sua melhor vida possível no futuro, ele precisa ser repensado.

 

    1. A importância das habilidades de “Aprender a Aprender”

Muitas vezes, a terapia falha porque tentamos ensinar conceitos complexos sem antes garantir que a criança tenha as bases. O APM prioriza o que chamamos de learning-how-to-learn skills.

O clínico avalia constantemente: a criança consegue esperar? Ela consegue prestar atenção aos materiais relevantes e ignorar os irrelevantes? Ela demonstra raciocínio dedutivo (ex: “se não é o A, então é o B”)? Ela consegue reter a informação? Priorizar essas bases é o que garante que o aprendizado futuro seja mais rápido e menos frustrante para o aluno.

 

    1. A família inteira importa, não apenas a criança

O autismo impacta toda a unidade familiar, e a intervenção deve refletir isso. No APM, o suporte vai além de ensinar técnicas aos pais. Ele envolve um olhar sistêmico que inclui:

– Suporte específico para irmãos.

– Envolvimento de psicólogos e terapeutas familiares para lidar com o estresse diário.

– Colaboração próxima para garantir que as metas sejam sustentáveis dentro da rotina real daquela casa.

O objetivo é que a intervenção melhore a qualidade de vida de todos, garantindo que a família se sinta apoiada e compreendida.

      1. Treinamento de equipe baseado em performance, não em horas

    No APM, ter um certificado ou completar 40 horas de curso não é o fim da linha, é apenas o começo. A competência não é medida por provas de múltipla escolha, mas pela capacidade demonstrada na prática.

    O treinamento inicial só é considerado concluído quando o aplicador demonstra maestria na implementação em diferentes contextos e com diferentes alunos. Além disso, o aprendizado é visto como um processo “sem fim”: supervisores e terapeutas continuam em treinamento constante para refinar sua sensibilidade clínica e empatia.

     

      1. Compaixão e Evolução: A Ciência é Progressiva

    Embora o termo “ABA Compassivo” tenha se tornado popular recentemente, ele é a espinha dorsal do APM desde sua origem. O método treina seus profissionais em componentes como consideração positiva incondicional, escuta ativa e o desenvolvimento de uma verdadeira aliança terapêutica.

    Essa abordagem tem raízes sólidas, remontando ao projeto original da UCLA nos anos 70, com o Dr. Ivar Lovaas. Ao longo de mais de 40 anos, os líderes do método (como Ronald Leaf e John McEachin) evoluíram a ciência para torná-la mais flexível e humana. O termo “Autism Partnership Method” foi adotado justamente para proteger essa integridade, diferenciando-se de outros profissionais que usam o nome “ABA Progressivo” mas ainda mantêm práticas rígidas e sem julgamento clínico.

     

    Reflexão Final

    A qualidade de uma intervenção comportamental não deve ser medida pela obediência da criança, mas pela sua autonomia e felicidade. O APM nos ensina que o rigor científico e o calor humano não são opostos; eles são, na verdade, os dois lados da mesma moeda na busca por uma vida melhor para indivíduos autistas.

    Ao escolher uma intervenção para seu filho ou aluno, a pergunta fundamental deve ser: estamos priorizando o cumprimento de uma lista de tarefas ou estamos desenvolvendo as bases para que ele seja dono do próprio destino?

     

     

     

    Referência
    Leaf, J. B., Cihon, J. H., Ferguson, J. L., Leaf, R., McEachin, J., Mountjoy, T., Leaf, J., & Rogue, A. (2023). A progressive approach to applied behavior analysis. Academic Press.

    Autor do Post
    Dr. Robson Faggiani – Analista do Comportamento, Psicólogo (CRP 13/8413), Especialista em Terapia Comportamental e Cognitiva, Mestre e Doutor em Psicologia Experimental, BCBA-D, QBA.

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