Se você convive com o autismo ou estuda Análise do Comportamento (ABA), provavelmente já se deparou com a cena: a criança ou adulto começa a fazer um movimento repetitivo (como agitar as mãos) ou emitir um som vocal (como repetir uma frase fora de contexto), e alguém diz: “precisamos bloquear isso”.
Mas será que “bloquear” é a melhor palavra? E mais importante: será que devemos sempre intervir?
Hoje vamos mergulhar fundo no RIRD (Response Interruption and Redirection), ou em bom português, Interrupção e Redirecionamento de Resposta. Esta é uma técnica baseada em evidências, mas que carrega consigo um debate ético gigantesco que você precisa conhecer antes de pensar em aplicá-la.
O Que é RIRD? (Não é só dizer “pare”)
Muitas pessoas confundem o RIRD com o simples “bloqueio de resposta” (segurar a mão da criança ou dizer “não faça isso”). Embora eles sejam parentes, o RIRD é mais sofisticado.
O RIRD é um procedimento utilizado principalmente para diminuir comportamentos repetitivos e estereotipados (frequentemente chamados de stims) que interferem na aprendizagem ou na vida diária.
A mágica — e a complexidade — está nas duas etapas do nome:
> Interrupção: Quando o comportamento alvo começa, o terapeuta ou cuidador interrompe a ação. Isso pode ser físico (impedir suavemente o movimento) ou vocal (chamar a atenção).
> Redirecionamento: Aqui está o “pulo do gato”. Imediatamente após interromper, você solicita que a pessoa engaje em uma série de comportamentos alternativos (geralmente tarefas simples que ela já sabe fazer muito bem).
Exemplo prático de RIRD Vocal:
– Cenário: A criança começa a fazer sons vocais repetitivos que a impedem de ouvir a professora.
– Ação (RIRD): O aplicador chama o nome dela e pede: “Qual o seu nome?”, “Que cor é esta?”, “Diga ‘bola'”.
– Resultado: A criança para o som repetitivo para responder às perguntas. Ao responder corretamente e sem a estereotipia, ela é elogiada e volta à atividade anterior.
A ideia é que a emissão de respostas apropriadas (falar as respostas) é incompatível com a estereotipia (fazer o som repetitivo). Você “ocupa” o canal de resposta com algo funcional.
Por Que Funciona? (A Ciência por Trás)
Estudos mostram que o RIRD é eficaz para reduzir tanto estereotipias motoras quanto vocais. Ele funciona através de dois mecanismos principais:
> Punição Positiva (tecnicamente falando): A exigência de realizar tarefas (responder perguntas) logo após o comportamento repetitivo torna esse comportamento mais “custoso” ou trabalhoso para a criança, diminuindo a chance de ele ocorrer no futuro.
> Reforço Negativo: A criança aprende que, ao cumprir as demandas do redirecionamento, a “exigência” para e ela pode voltar ao seu descanso ou atividade.
> O “Elefante na Sala”: É Ético Usar RIRD?
Aqui chegamos ao ponto crucial que você questionou. Só porque funciona, devemos usar?
A visão sobre estereotipias mudou drasticamente nos últimos anos, impulsionada pelo movimento da neurodiversidade. Antigamente, o objetivo de muitas terapias era fazer a pessoa autista parecer “indistinguível” de seus pares típicos. Hoje, a ética nos obriga a fazer perguntas mais difíceis:
1. O Comportamento é Realmente um Problema?
Muitas estereotipias têm função de autorregulação. A criança balança o corpo para se acalmar ou emite sons para organizar o excesso de estímulos sensoriais. Se tirarmos isso dela sem dar uma alternativa equivalente, podemos gerar ansiedade ou até comportamentos agressivos.
Não Ético: Aplicar RIRD para parar um movimento só porque ele “parece estranho” socialmente ou incomoda quem está olhando.
Ético (potencialmente): Considerar o RIRD se o comportamento for autolesivo (machuca a criança) ou se for tão intenso que a impede de aprender novas habilidades ou se alimentar (ex: a criança não consegue comer porque não para de bater as mãos).
2. O Custo da Intervenção
O RIRD pode ser cansativo e frustrante. Imagine alguém te interrompendo e te fazendo perguntas de tabuada toda vez que você roe as unhas. Pesquisas indicam que, se mal aplicado, o RIRD pode gerar reações emocionais negativas, esquiva ou até agressão.
3. Validade Social
Antes de aplicar, pergunte-se: “Isso vai melhorar a qualidade de vida dela ou apenas o meu conforto?”. O foco deve ser na funcionalidade e bem-estar, não na estética.
Veredito: Quando e Como Usar?
Se você e sua equipe (sempre com supervisão de um analista do comportamento qualificado) decidirem que o RIRD é necessário — por exemplo, para uma pica (comer objetos não comestíveis) ou uma estereotipia vocal que impede totalmente a comunicação —, siga estas regras de ouro:
Nunca use como primeira opção: Tente estratégias antecedentes primeiro (enriquecer o ambiente, ensinar comunicação funcional).
Avalie a Função: Você precisa saber por que a estereotipia acontece. Se for sensorial, o RIRD pode funcionar. Se for para chamar atenção, o RIRD pode piorar tudo (pois você está dando atenção ao dar as ordens).
Seja Breve: Versões modernas do RIRD mostram que fazer apenas uma demanda (em vez de três) pode ser tão eficaz quanto e menos intrusivo.
Monitore Efeitos Colaterais: Se a criança começar a fugir de você ou ficar agressiva, pare e reavalie.
Conclusão
O RIRD é uma ferramenta poderosa na caixa de ferramentas da ABA, mas não é um martelo para ser usado em qualquer prego. A ética moderna exige que respeitemos a autonomia autista. Interromper um movimento que traz conforto só é justificável se esse movimento estiver causando um dano maior à própria pessoa.
Na dúvida, a regra é clara: acolhimento e compreensão vêm antes do controle.
Referência:
SPENCER, Vicky G.; ALKHANJI, Rufaida. Response interruption and redirection (RIRD) as a behavioral intervention for vocal stereotypy: A systematic review. Education and Training in Autism and Developmental Disabilities, v. 53, n. 1, p. 33-43, 2018
DICKMAN, Sarah E. et al. The effects of response interruption and redirection (RIRD) and differential reinforcement on vocal stereotypy and appropriate vocalizations. Behavioral Interventions, v. 27, n. 4, p. 185-192, 2012.
Autor do post:
Luiz Kennedy de Almeida Silva – Psicólogo (CRP:13/9162), Pedagogo especializado em Psicopedagogia, Coordenador ABA.





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