Você já sentiu o coração acelerar, as mãos suarem ou um nó se formar na garganta, mas foi incapaz de dizer se estava com medo, ansioso, irritado ou simplesmente com fome? Para a maioria das pessoas, esse “analfabetismo emocional” é passageiro. No entanto, para uma parcela significativa da população – e especialmente para pessoas no espectro autista – essa desconexão é uma companheira constante. O nome técnico para isso é Alexitimia, que literalmente significa “sem palavras para as emoções”.
Embora muitas vezes confundida com o próprio autismo, a alexitimia é um traço independente que pode ser a chave para desvendar por que tantas pessoas autistas sofrem com níveis elevados de ansiedade e desafios na comunicação social. Um estudo recente e abrangente, publicado na Psychological Medicine , mergulhou fundo nessa relação, acompanhando centenas de pessoas ao longo do tempo para entender como a nossa capacidade de “ler” nossos próprios sentimentos dita a nossa saúde mental e social.
Neste artigo, vamos dissecar essas descobertas fascinantes e entender por que ensinar a identificar emoções pode ser tão ou mais importante do que ensinar habilidades sociais.
O Que é, Afinal, a Alexitimia?
Antes de mergulharmos nos dados, precisamos entender o conceito. A alexitimia não é apenas “não ter sentimentos”. Pelo contrário, a pessoa sente, mas tem dificuldade em processar o que sente. O estudo divide a alexitimia em três facetas principais:
Dificuldade em Identificar Sentimentos: É a confusão interna. A pessoa sente uma sensação corporal (como um frio na barriga), mas não sabe interpretar se aquilo é uma emoção ou uma sensação física.
Dificuldade em Descrever Sentimentos: É a barreira da comunicação. A pessoa pode até saber que está mal, mas não encontra as palavras certas para explicar isso aos outros.
Pensamento Orientado Externamente: Uma tendência a focar em fatos concretos e eventos externos, evitando a introspecção ou o foco em estados internos.
Estima-se que cerca de 10% da população geral tenha esse traço, mas no autismo, os números saltam drasticamente: entre 40% a 65% das pessoas autistas podem apresentar alexitimia severa.
O Estudo: Um Olhar Profundo e Longo
Para entender como isso afeta a vida real, pesquisadores do grupo EU-AIMS LEAP analisaram 337 adolescentes e adultos (sendo 179 autistas). O grande diferencial deste estudo foi que ele não tirou apenas uma “foto” do momento; eles acompanharam parte desse grupo por um período de 12 a 24 meses. Isso permitiu ver se a alexitimia é algo que muda ou se é um traço estável que prevê problemas futuros.
Os resultados foram reveladores e desenharam um mapa preciso de como diferentes tipos de “cegueira emocional” levam a diferentes problemas.
A Descoberta 1: “Descrever” é Social, “Identificar” é Pessoal
O estudo descobriu uma distinção crucial que muda a forma como pensamos sobre o suporte ao autismo. A alexitimia não ataca tudo da mesma forma; suas facetas têm alvos específicos.
O Elo com a Comunicação Social
Os pesquisadores descobriram que a dificuldade em descrever sentimentos é o fator que mais fortemente se associa às dificuldades de comunicação social. Pense nisso: se você não consegue colocar em palavras o que se passa dentro de você, como pode navegar nas complexas trocas sociais que exigem empatia e troca emocional?
O dado mais impactante é que essa dificuldade em descrever emoções previu dificuldades sociais futuras. Ou seja, a pessoa que hoje não consegue verbalizar o que sente, provavelmente terá mais desafios sociais daqui a dois anos. Isso sugere que muitas vezes o que chamamos de “dificuldade social” no autismo pode, na raiz, ser um problema de linguagem emocional.
O Elo com a Ansiedade
Por outro lado, a dificuldade em identificar sentimentos foi o grande vilão da saúde mental. Ela estava robustamente ligada à gravidade da ansiedade.
A lógica aqui é fisiológica e assustadora. Imagine sentir seu corpo reagir intensamente (taquicardia, respiração curta) mas seu cérebro não conseguir rotular isso como “medo” ou “preocupação”. Sem esse rótulo, você não consegue usar estratégias para se acalmar (como dizer a si mesmo: “estou apenas nervoso com a prova”). O resultado é um estado de alerta constante e não regulado, que chamamos de ansiedade. O estudo mostrou que essa dificuldade em identificar emoções prevê níveis mais altos de ansiedade no futuro.
O Fator Gênero: As Mulheres Autistas no Centro do Palco
Um dado que merece destaque especial é a diferença entre gêneros. O estudo mostrou que as mulheres autistas apresentaram taxas significativamente mais altas de alexitimia do que os homens autistas.
Para se ter uma ideia da disparidade: 47,3% das mulheres autistas no estudo atingiram o ponto de corte para alexitimia clinicamente relevante, comparado a apenas 21,0% dos homens autistas.
Isso é crucial porque sabemos que mulheres autistas frequentemente sofrem mais com comorbidades de saúde mental, como ansiedade e depressão. Este estudo sugere que a alexitimia pode ser o mecanismo “invisível” por trás dessa vulnerabilidade aumentada nas mulheres.
A Estabilidade do Traço: Não é Apenas Uma Fase
Ao acompanhar os participantes por até dois anos, os pesquisadores notaram que a alexitimia é notavelmente estável. Ela não tende a desaparecer sozinha com o tempo. Isso reforça a ideia de que a alexitimia é um traço de personalidade arraigado, e não apenas um estado passageiro de confusão.
Isso significa que, se não interviermos ativamente, a pessoa autista que tem dificuldade em entender suas emoções na adolescência provavelmente continuará tendo essa dificuldade na vida adulta, carregando consigo o fardo acumulado da ansiedade e do isolamento social.
Por Que Isso Muda Tudo na Terapia?
As implicações práticas dessas descobertas são imensas. Tradicionalmente, terapias para autistas focam muito em “habilidades sociais” (olhar nos olhos, saber iniciar conversa) ou em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) clássica para ansiedade.
No entanto, a TCC exige que o paciente identifique e discuta suas emoções e pensamentos. Se a pessoa tem alexitimia severa (não consegue identificar), a terapia tradicional pode falhar ou ser muito difícil.
O estudo sugere uma mudança de paradigma:
Treino de Consciência Emocional: Antes de tentar reduzir a ansiedade ou melhorar a socialização, precisamos ensinar a pessoa a ler o próprio corpo. Intervenções que focam na interocepção (perceber os sinais internos do corpo) podem ser o primeiro passo necessário.
Foco na Linguagem Emocional: Para melhorar a vida social, não basta ensinar regras de etiqueta; é preciso expandir o vocabulário emocional da pessoa, ajudando-a a descrever o que sente.
Conclusão
A alexitimia no autismo não é apenas um detalhe curioso; é um mecanismo central que dita a qualidade de vida. O estudo de Oakley e colaboradores nos mostra que, ao ajudarmos pessoas autistas a decifrarem o enigma de suas próprias emoções, não estamos apenas promovendo autoconhecimento. Estamos, na verdade, oferecendo ferramentas poderosas para combater a ansiedade crônica e construir pontes sociais mais sólidas.
Talvez o segredo para uma melhor saúde mental no autismo comece com uma pergunta simples, mas profunda: “Qual é o nome disso que você está sentindo agora?”.
Referências
Oakley, B. F. M., et al. (2022). Alexithymia in autism: cross-sectional and longitudinal associations with social-communication difficulties, anxiety and depression symptoms. Psychological Medicine, 52, 1458–1470.
Autor do Post
Luiz Kennedy de Almeida Silva – Psicólogo (CRP:13/9162), Pedagogo especializado em Psicopedagogia, Coordenador ABA.





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