A época de matrícula escolar é cercada de expectativas, mas para pais e responsáveis de crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), esse período também traz inseguranças. Afinal, a escola não deve ser apenas um lugar onde o aluno “está presente”, mas um ambiente onde ele pertença e se desenvolva.
Se você está no processo de escolha ou transição, preparamos este guia com os pontos essenciais que você deve observar antes de assinar o contrato.
1. A Cultura da Escola: Além do Discurso
Muitas escolas se dizem inclusivas porque seguem a lei, mas a inclusão real vai além do cumprimento de normas.
– Abertura ao diálogo: Observe como a coordenação reage ao ouvir sobre as especificidades do seu filho. Eles demonstram interesse em aprender ou parecem “receosos”?
– Histórico de inclusão: Pergunte se a escola já possui outros alunos neurodivergentes e como é a convivência entre eles e os demais colegas.
– Visão sobre a neurodiversidade: A escola vê o autismo como um problema a ser “contornado” ou como uma forma diferente de aprender que exige estratégias específicas?
2. A Equipe e o Suporte Especializado
A estrutura humana é o pilar mais importante. Verifique quem estará na linha de frente com o aluno:
– AEE (Atendimento Educacional Especializado): A escola possui uma sala de recursos multifuncionais ou um profissional dedicado ao AEE?
– Mediadores e Auxiliares: Como a escola lida com a necessidade de um mediador (acompanhante terapêutico)? Eles permitem a entrada de profissionais externos ou fornecem um auxiliar capacitado?
– Treinamento da Equipe: Os professores regentes e até os funcionários do pátio recebem treinamento básico sobre manejo comportamental e acolhimento?
3. O Plano Educacional Individualizado (PEI)
Este é o documento mais importante para o aluno com TEA. Sem ele, a inclusão é cega.
– Personalização: Questione como a escola elabora o PEI. Ele é revisto com qual frequência?
– Adaptação de Atividades: As provas e tarefas são adaptadas de acordo com o nível cognitivo e as habilidades motoras do aluno?
– Metas Reais: O plano foca tanto em objetivos acadêmicos quanto em habilidades sociais e de autonomia?
4. O Ambiente Físico e Sensorial
Para muitos autistas, o ambiente pode ser um gatilho de crises ou de desorganização sensorial.
– Nível de Ruído: A escola é excessivamente barulhenta? Existem momentos de som muito alto (como sinal de sirene estridente)?
– Espaço de Descompressão: Existe um local calmo para onde o aluno possa ser levado caso se sinta sobrecarregado sensorialmente?
– Iluminação e Ventilação: Salas muito claras ou com muitos estímulos visuais nas paredes podem dispersar o aluno. Observe se há um equilíbrio.
5. A Parceria Escola-Clínica-Família
A evolução do aluno depende de uma “tríade” que funcione bem.
– Relatórios: A escola está aberta a ler os relatórios dos terapeutas (psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais) e aplicar as orientações em sala?
– Reuniões Periódicas: Verifique se há abertura para reuniões de alinhamento entre a equipe escolar e os profissionais que atendem a criança na clínica.
– Comunicação Diária: Como será o feedback diário? (Agenda, aplicativo, conversa rápida na saída?).
6. Socialização e Combate ao Bullying
A escola deve ser um agente ativo na mediação das relações sociais.
– Intervalos Monitorados: O recreio é o momento de maior vulnerabilidade. A escola monitora a integração do aluno com os pares?
– Educação dos Colegas: A escola realiza trabalhos de conscientização com a turma para evitar o bullying e promover a empatia?
Checklist Rápido para a Reunião de Matrícula:
- Como vocês lidam com crises de desorganização?
- O material didático pode ser adaptado sem custo adicional? (Lembrando que a lei proíbe cobrança extra por inclusão).
- Como é feita a avaliação do aprendizado para alunos que não utilizam a escrita convencional?
- Qual o canal direto de comunicação entre pais e professores?
Conclusão
Escolher uma escola não é apenas olhar a infraestrutura moderna ou a nota no IDEB. Para o aluno com autismo, o melhor colégio é aquele que enxerga o potencial por trás do diagnóstico e se dispõe a caminhar junto com a família.
Sinta-se seguro para perguntar, visitar e confiar no seu instinto. A educação é um direito, e a inclusão é um dever de todos!
Se precisar de suporte para relatórios escolares ou orientação parental, entre em contato com a nossa equipe aqui na Clínica
Autor do post:
Luiz Kennedy de Almeida Silva – Psicólogo (CRP:13/9162), Pedagogo especializado em Psicopedagogia, Coordenador ABA.





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