Por que essa diferença importa quando falamos de autismo, saúde e fake news
Duas coisas acontecerem próximas uma da outra não significa, por si só, que uma provocou a outra. Parece uma diferença pequena, mas ignorá-la pode alimentar medo, culpa e decisões de saúde baseadas em informações falsas.
Quando a sequência parece uma explicação
É comum que pais e profissionais tentem localizar o momento em que perceberam as primeiras características do TEA. Muitas vezes, essa lembrança coincide com uma vacina, uma mudança na alimentação, o início do uso mais frequente de telas, a entrada na escola ou alguma infecção. A proximidade entre os acontecimentos é real. O que não pode ser presumido é que o primeiro tenha causado o segundo.
Nosso cérebro procura padrões e explicações. Se algo aconteceu antes de uma mudança importante, é natural pensar: “foi isso”. Na ciência, porém, a ordem dos acontecimentos é apenas o começo da investigação. A frase “aconteceu depois de” não é equivalente a “aconteceu por causa de”.
Essa confusão ganha força no TEA porque muitas características se tornam mais visíveis nos primeiros anos de vida, justamente quando a criança recebe vacinas, amplia o contato com telas, experimenta novos alimentos e passa a enfrentar demandas sociais e de comunicação mais complexas. A coincidência temporal pode ser convincente, embora não demonstre causalidade.
Afinal, o que é correlação?
Correlação significa que duas variáveis aparecem relacionadas. Quando uma muda, a outra também tende a mudar. Isso pode acontecer porque uma influencia a outra, mas também porque a direção da relação é inversa ou porque existe um terceiro fator afetando as duas.
Um exemplo simples ajuda. Em períodos mais quentes, aumentam as vendas de sorvete e o número de pessoas nas praias. As duas medidas caminham juntas, mas comprar sorvete não faz alguém ir à praia. O calor influencia ambas. Nesse caso, a temperatura é um fator de confusão.
Em estudos sobre desenvolvimento infantil, os fatores de confusão são numerosos: idade, genética, condições de saúde, acesso à avaliação, contexto familiar, escolaridade, renda, oportunidades de interação e até a forma como os dados foram coletados. Um estudo pode encontrar uma associação estatística verdadeira e, mesmo assim, não conseguir explicar por que ela existe.
O que é necessário para falar em causa
Não existe uma única pergunta capaz de transformar uma correlação em causa. Pesquisadores avaliam o conjunto das evidências: se o fator ocorreu antes do resultado, se outras explicações foram consideradas, se a associação foi repetida em diferentes populações, se existe um mecanismo plausível e se métodos de pesquisa mais rigorosos chegam a conclusões semelhantes. Esses cuidados dialogam com os critérios clássicos discutidos por Bradford Hill (1965), que continuam úteis para organizar o raciocínio causal.
Também é importante olhar além do número de participantes. Uma amostra grande aumenta a precisão, mas não conserta uma pergunta mal formulada, uma medida inadequada ou a ausência de controle de variáveis importantes. Do mesmo modo, um único artigo não deve ser tratado como resposta definitiva, especialmente quando seus resultados divergem do restante da literatura.
Vacinas e autismo: quando uma hipótese é testada
A falsa afirmação de que vacinas causam autismo é um exemplo marcante de como uma associação aparente pode se transformar em desinformação. A ideia ganhou projeção após a publicação, em 1998, de um pequeno estudo que sugeria uma relação entre a vacina tríplice viral e alterações do desenvolvimento. O artigo foi posteriormente retirado da revista, após a identificação de graves problemas científicos e éticos.
Depois disso, a hipótese foi investigada em estudos muito maiores. Em uma coorte nacional dinamarquesa, Hviid e colaboradores (2019) acompanharam 657.461 crianças. A vacinação com a tríplice viral não esteve associada a maior risco de autismo. O estudo também não encontrou evidências de que a vacina desencadeasse o TEA em crianças consideradas mais suscetíveis.
Uma meta-análise de Taylor, Swerdfeger e Eslick (2014) reuniu dados de cinco estudos de coorte, com 1.256.407 crianças, e de cinco estudos caso-controle, com 9.920 participantes. Os resultados não mostraram associação entre vacinação e autismo, nem entre autismo e tríplice viral, timerosal ou mercúrio.
Em 2025, o Comitê Consultivo Global sobre Segurança de Vacinas da Organização Mundial da Saúde revisou 31 estudos primários publicados entre 2010 e agosto de 2025. A conclusão permaneceu a mesma: as evidências de melhor qualidade não sustentam uma relação causal entre vacinas e TEA, inclusive para vacinas que contêm timerosal ou adjuvantes de alumínio (WHO, 2025a).
Nesse caso, portanto, não estamos apenas repetindo que correlação não prova causa. A possível relação foi investigada por diferentes métodos, em grandes populações e em vários países, sem confirmação da hipótese causal.
E as telas, a alimentação e outras associações?
Em outros assuntos, as respostas podem ser menos fechadas, mas a regra de cautela é a mesma. Se um estudo observa que crianças com mais dificuldades de comunicação usam telas por mais tempo, há várias explicações possíveis. O uso de telas pode reduzir algumas oportunidades de interação; crianças que já apresentam determinadas características podem buscar mais esse tipo de estímulo; famílias com menor rede de apoio podem recorrer às telas com maior frequência; ou todos esses processos podem ocorrer ao mesmo tempo.
Sem um desenho de pesquisa capaz de separar essas possibilidades, afirmar que “telas causam autismo” ultrapassa o que os dados permitem. Isso não significa que o tempo, o conteúdo e a forma de uso das telas sejam irrelevantes para o desenvolvimento. Significa apenas que discutir efeitos sobre sono, atenção, interação ou aprendizagem é diferente de afirmar que a tela causou o TEA.
O mesmo cuidado vale para a alimentação. Uma criança pode dormir melhor, apresentar menos desconforto gastrointestinal ou ficar mais disponível para aprender depois de uma mudança alimentar. Essa melhora merece atenção e acompanhamento. Ela não prova, porém, que o alimento retirado tenha causado o autismo, nem que a mesma estratégia seja segura ou útil para todas as crianças.
Também é preciso separar perguntas que parecem semelhantes, mas não são: um fator está associado ao TEA? Ele participa de sua causa? Modificá-lo melhora uma dificuldade específica? Cada pergunta exige um tipo de estudo e permite conclusões diferentes.
Como a correlação vira fake news
A desinformação costuma simplificar fenômenos complexos. Um depoimento pessoal é apresentado como comprovação científica; um estudo que encontrou associação vira uma manchete sobre causa; um resultado preliminar é divulgado sem as limitações; ou uma explicação única é oferecida para uma condição que envolve múltiplos fatores.
No campo do autismo, esse tipo de mensagem encontra famílias que estão procurando respostas e querendo fazer o melhor por seus filhos. É justamente por isso que merece cuidado. A promessa de descobrir “o que causou” pode produzir culpa, levar ao abandono de cuidados importantes e favorecer gastos com exames, dietas, suplementos ou intervenções sem evidência suficiente.
A experiência das famílias não precisa ser desvalorizada. Um relato pode levantar uma boa pergunta clínica e ajudar a identificar mudanças relevantes. O limite está em transformá-lo em regra geral ou prova causal. Uma observação individual não controla outras variáveis e não mostra o que teria acontecido sem aquela intervenção.
Um filtro simples para ler notícias e publicações
Antes de compartilhar uma afirmação sobre autismo ou saúde, vale conferir alguns pontos:
• O estudo encontrou associação ou causa? Expressões como “associado a”, “relacionado a” e “maior probabilidade” não significam “causado por”.
• O resultado vem de um único trabalho? Resultados isolados pedem cautela, principalmente quando entram em conflito com revisões e estudos maiores.
• Outras explicações foram consideradas? Idade, saúde, genética, contexto familiar, acesso ao diagnóstico e condições sociais podem influenciar os achados.
• A fonte mostra as limitações? Comunicação científica responsável informa o que o estudo conseguiu responder e o que permaneceu em aberto.
• A manchete diz mais do que o artigo? É comum que títulos chamativos transformem uma associação moderada em uma afirmação causal.
• Existe interesse comercial? Promessas de causa única, cura rápida ou resultado garantido merecem atenção redobrada, sobretudo quando acompanham a venda de produtos ou tratamentos.
Correlação não é inútil
Uma correlação pode ser o início de uma investigação importante. Ela ajuda a formular hipóteses, identificar grupos que precisam de apoio e decidir quais perguntas merecem estudos mais rigorosos. O problema não está em observar associações, mas em comunicar uma certeza que os dados ainda não oferecem.
Uma formulação honesta seria: “o estudo encontrou uma associação, mas não permite concluir que um fator causou o outro”. Essa frase é menos chamativa do que “cientistas descobrem a causa”, porém representa melhor o conhecimento disponível.
As evidências atuais indicam que o autismo está relacionado a uma combinação complexa de fatores, incluindo componentes genéticos e ambientais, cuja participação e interação ainda são investigadas (WHO, 2025b). Reconhecer o que já sabemos e o que ainda não sabemos não enfraquece a ciência. É justamente o que diferencia uma conclusão cuidadosa de uma fake news bem contada.
Quando uma publicação oferecer uma explicação simples para um fenômeno complexo, faça uma pausa e pergunte: os dados mostram que uma coisa causou a outra ou apenas que elas apareceram juntas?
Referências
Hill, A. B. (1965). The environment and disease: Association or causation? Proceedings of the Royal Society of Medicine, 58(5), 295–300. https://doi.org/10.1177/003591576505800503
Hviid, A., Hansen, J. V., Frisch, M., & Melbye, M. (2019). Measles, mumps, rubella vaccination and autism: A nationwide cohort study. Annals of Internal Medicine, 170(8), 513–520. https://doi.org/10.7326/M18-2101
Taylor, L. E., Swerdfeger, A. L., & Eslick, G. D. (2014). Vaccines are not associated with autism: An evidence-based meta-analysis of case-control and cohort studies. Vaccine, 32(29), 3623–3629. https://doi.org/10.1016/j.vaccine.2014.04.085
World Health Organization. (2025a, December 11). WHO expert group’s new analysis reaffirms there is no link between vaccines and autism. https://www.who.int/news/item/11-12-2025-who-expert-group-s-new-analysis-reaffirms-there-is-no-link-between-vaccines-and-autism
World Health Organization. (2025b, September 17). Autism. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/autism-spectrum-disorders
Autor do post
Me. Amanda de Oliveira – Psicóloga (CRP: 13/9360), Pós Graduada em Clínica Analítico Comportamental, mestre em Psicologia Social.





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