Qualquer pessoa que conviva com uma criança no Transtorno do Espectro Autista (TEA) sabe que a hora de dormir pode ser um dos momentos mais desafiadores do dia. A exaustão familiar é real e, muitas vezes, as noites em claro são tratadas apenas como uma “fase” ou um detalhe secundário. No entanto, pesquisas recentes e aprofundadas nos mostram que o buraco é muito mais embaixo: o sono não é apenas uma pausa para descanso, mas um termômetro e um modulador direto do comportamento diurno dessas crianças.
Decidi compilar os achados de estudos abrangentes sobre o tema para entendermos exatamente o que está acontecendo durante a noite e, mais importante, como isso reflete no que vemos durante o dia.
A Realidade dos Números: Não é “Impressão” Sua
Se você acha que seu filho tem mais dificuldade para dormir do que outras crianças, os dados comprovam isso. Em crianças na fase pré-escolar com TEA, a prevalência de problemas de sono atinge impressionantes 81,7%, um número muito superior aos 61% observados em crianças com desenvolvimento típico.
Conforme essas crianças crescem e chegam à idade escolar, o problema não desaparece por encanto. Mais de 72% das crianças autistas em idade escolar continuam apresentando distúrbios do sono clinicamente significativos.
Mas do que exatamente estamos falando quando dizemos “problemas de sono”? A pesquisa aponta que os maiores desafios são:
- Alta resistência para ir para a cama.
- Ansiedade na hora de dormir.
- Demora significativa para conseguir adormecer (latência do sono).
- Parassonnias (como agitação extrema durante o sono ou fazer xixi na cama) e redução do tempo total de sono.
O Efeito Cascata: Como a Noite Dita as Regras do Dia
A grande virada de chave no entendimento do sono no autismo é perceber que uma noite ruim cobra seu preço no dia seguinte. O sono não é um problema isolado; ele está intimamente ligado à regulação das emoções e aos sintomas centrais do autismo.
- Atraso no sono e desregulação emocional: Demorar muito tempo para conseguir pegar no sono foi identificado como um fator que explica uma proporção considerável do aumento de problemas emocionais e comportamentais diurnos, como hiperatividade e desatenção.
- Resistência para dormir e comportamentos repetitivos: Quando a criança luta muito para não ir para a cama, isso atua como um fator de risco direto para o aumento de comportamentos repetitivos, movimentos estereotipados e rigidez no dia seguinte.
- Gravidade do autismo: A gravidade geral dos problemas de sono está positivamente correlacionada com a própria gravidade dos traços clínicos do autismo. Crianças que dormem mal apresentam prejuízos maiores na interação social recíproca, na expressividade social e no uso da linguagem.
O Que Está Piorando o Sono?
Para além das questões neurobiológicas, a ciência identificou alguns fatores de risco presentes na nossa rotina que podem estar agravando o quadro:
– A Cama Compartilhada: Embora seja uma prática comum e, muitas vezes, a única forma que os pais encontram para conseguir descansar um pouco, o compartilhamento da cama (ou do quarto) está fortemente associado a distúrbios de sono mais severos nas crianças autistas. A prática está ligada a um aumento na ansiedade do sono e na resistência para deitar.
– Ansiedade de Separação: Entre todas as condições psiquiátricas que podem coexistir com o autismo (como TDAH, fobias, etc.), o Transtorno de Ansiedade de Separação foi o único fator que previu significativamente a piora dos problemas de sono na criança.
– Fatores Demográficos: Fatores como a idade materna mais avançada no momento do nascimento também mostraram associação com maiores dificuldades de sono nas crianças com TEA. Além disso, a renda familiar também parece ter influência, sugerindo que famílias com menor nível socioeconômico enfrentam ainda mais problemas com o sono de suas crianças.
O Que Tiramos Disso Tudo?
Não podemos continuar tratando a insônia e as dificuldades noturnas de crianças no espectro como um “efeito colateral” com o qual temos que aprender a conviver. Se o seu filho está apresentando um aumento na rigidez, crises de choro, hiperatividade ou dificuldade de socialização durante o dia, o primeiro passo da investigação deve ser: como está a noite dele?
A literatura científica recomenda que o tratamento da insônia no autismo deve começar sempre por intervenções comportamentais e pela educação da família sobre higiene do sono, antes mesmo de pensar em medicamentos. Estabelecer rotinas claras, investigar e tratar a ansiedade de separação e repensar o arranjo de onde a criança dorme podem não apenas trazer noites mais tranquilas, mas também dias muito mais regulados e felizes para toda a família.
Referências
Leung, M. H. B., Ngan, S. T. J., Cheng, P. W. C., Chan, F. C. G., Chang, W. C., Cheung, H. K., … & Chan, K. L. P. (2023). Sleep problems in children with autism spectrum disorder in Hong Kong: a cross-sectional study. Frontiers in Psychiatry, 14, 1088209.
Kang, Y.-Q., Song, X.-R., Wang, G.-F., Su, Y.-Y., Li, P.-Y., & Zhang, X. (2020). Sleep Problems Influence Emotional/Behavioral Symptoms and Repetitive Behavior in Preschool-Aged Children With Autism Spectrum Disorder in the Unique Social Context of China. Frontiers in Psychiatry, 11, 273.
Autor do post:
Luiz Kennedy de Almeida Silva – Psicólogo (CRP:13/9162), Pedagogo especializado em Psicopedagogia, Coordenador ABA.





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