A diferenciação entre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Atraso Global do Desenvolvimento (AGD) em crianças em idade pré-escolar pode ser extremamente desafiadora devido à sobreposição de sintomas e aos prejuízos de desenvolvimento compartilhados. Muitas crianças com AGD podem apresentar traços característicos do TEA, dificultando a distinção clara entre as duas condições nos primeiros anos de vida.
Para entender melhor essas fronteiras, um estudo recente investigou 89 crianças (entre 3 e 5,8 anos de idade), sendo 42 com diagnóstico de TEA e 47 com AGD que apresentavam traços autistas. As crianças foram avaliadas em relação ao funcionamento adaptativo, características emocionais e comportamentais, e sintomatologia autista.
Abaixo, detalhamos as principais descobertas desse estudo e o que elas significam na prática para pais, terapeutas e educadores.
1. A Sobreposição: Onde o TEA e o AGD se Parecem?
Muitas vezes, a criança com AGD apresenta comportamentos que a família ou a escola associam imediatamente ao autismo. O estudo confirmou que há grandes semelhanças entre os dois grupos em diversas áreas:
- Funcionamento Adaptativo: Não houve diferenças significativas no funcionamento adaptativo entre as crianças com TEA e as crianças com AGD. Ambos os grupos demonstraram prejuízos acentuados nas habilidades conceituais, sociais e práticas do dia a dia.
- Comportamento de Retraimento Social: Tanto as crianças com TEA quanto as crianças com AGD apresentaram níveis limítrofes (borderline) na escala de retraimento. Isso significa que ambos os grupos demonstram preferência pela solidão, interesse limitado em interações sociais, evitação de contato e aparente tristeza.
- Traços Autistas Compartilhados: Surpreendentemente, não houve diferenças significativas entre os grupos em comportamentos como imitação, resposta de escuta, resposta sensorial (paladar, olfato e tato) e níveis de medo ou nervosismo.
2. A Mesma Ação, Mas Motivos Diferentes
Um dos pontos mais fascinantes apontados pela pesquisa é que, embora as crianças com TEA e AGD possam apresentar comportamentos semelhantes, a função ou a origem desse comportamento pode ser diferente.
- Adaptação a Mudanças e Rotinas: Ambos os grupos apresentaram dificuldades em lidar com mudanças. No entanto, no TEA, a rigidez e a insistência na mesmice parecem estar ligadas à regulação da excitação emocional e da ansiedade. Já no AGD, a preferência por rotinas familiares pode servir como uma estratégia compensatória para lidar com déficits no planejamento, na flexibilidade cognitiva e na organização comportamental.
- Dificuldades Sensoriais: As respostas atípicas a estímulos táteis, olfativos, gustativos e auditivos foram semelhantes em ambos os grupos. Isso sugere que as dificuldades de modulação sensorial representam uma característica transdiagnóstica (presente em várias condições do neurodesenvolvimento), e não uma exclusividade do autismo.
3. As Diferenças: O Que Realmente Distingue o TEA?
Apesar das sobreposições, o grupo com TEA apresentou pontuações significativamente maiores na gravidade geral dos sintomas autistas.
- O Diferencial Visual: Entre todas as modalidades sensoriais avaliadas, a resposta visual foi a que mais claramente distinguiu o TEA do AGD. Esse achado apoia a ideia de que respostas visuais atípicas podem constituir um marcador específico para o diagnóstico de autismo na primeira infância.
- Outras Diferenças: Crianças com TEA também tiveram pontuações indicando maior atipicidade em relação ao relacionamento com pessoas, resposta emocional, uso do corpo e de objetos, e comunicação verbal e não verbal.
4. Implicações Práticas para Terapeutas, Pais e Educadores
Os resultados deste estudo trazem lições valiosas para quem convive e trabalha com crianças na primeira infância:
- Para Terapeutas (Avaliadores e Clínicos): É essencial o aprimoramento contínuo do treinamento clínico para avaliar pré-escolares, com foco na compreensão de comorbidades e na diferenciação precisa entre os transtornos do neurodesenvolvimento. Evitar erros de diagnóstico garante que a criança receba a intervenção correta.
- Para Pais e Cuidadores: A pesquisa enfatiza a importância de programas terapêuticos adaptados que envolvam ativamente os pais. Apoiar os cuidadores na compreensão e no manejo das dificuldades específicas de seus filhos pode reduzir o estresse parental, melhorar o funcionamento familiar e promover um ambiente mais estável para o desenvolvimento da criança.
- Para Educadores: Compreender que comportamentos como o retraimento social, o apego à rotina e as desregulações sensoriais não são exclusivos do autismo ajuda a escola a oferecer suportes adequados também para alunos com Atraso Global do Desenvolvimento. As intervenções devem considerar o perfil individual da criança e suas estratégias compensatórias.
A identificação precoce e um diagnóstico diferencial preciso são fundamentais para orientar estratégias de intervenção eficazes, permitindo um planejamento de cuidados verdadeiramente individualizado.
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Referências:
- Sperandini, V., Fucà, E., Sbarbati, M., Schettino, M., Falvo, S., Quarin, F., De Rose, P., & Vicari, S. (2025). Differentiating autism spectrum disorder and global developmental delay in preschoolers: overlapping profiles and diagnostic challenges. Frontiers in Psychology, 16:1690272.
Autor do post:
Luiz Kennedy de Almeida Silva – Psicólogo (CRP:13/9162), Pedagogo especializado em Psicopedagogia, Coordenador ABA.





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