Funções Executivas no Autismo: quando a criança sabe fazer, mas não consegue fazer sozinha

“Mas ela sabe fazer isso em casa.”

“Na terapia ela consegue.”

“Ontem ela acertou, mas hoje parece que esqueceu tudo.”

Se você convive com uma criança autista, provavelmente já ouviu ou até mesmo falou alguma dessas frases.

Muitas vezes, quando uma criança apresenta dificuldades para realizar uma atividade, a primeira conclusão é que ela ainda não aprendeu aquela habilidade. No entanto, nem sempre é isso que está acontecendo.

Em diversos casos, a criança sabe o que fazer, mas encontra dificuldades para organizar, iniciar, monitorar ou concluir a tarefa de forma independente. É nesse ponto que entram as chamadas Funções Executivas.

 

O que são Funções Executivas?

Imagine um maestro conduzindo uma orquestra. Cada músico sabe tocar seu instrumento, mas alguém precisa coordenar tudo para que a música aconteça de forma organizada.

As Funções Executivas exercem um papel semelhante no cérebro. Elas ajudam a coordenar diferentes habilidades para que possamos agir de forma eficiente diante das demandas do dia a dia.

São elas que nos permitem:

    • Planejar o que vamos fazer;
    • Manter a atenção em uma tarefa;
    • Lembrar instruções;
    • Controlar impulsos;
    • Corrigir erros;
    • Adaptar-nos quando algo muda.

Sem essas habilidades, até tarefas aparentemente simples podem se tornar muito difíceis.

Nem toda dificuldade significa falta de aprendizagem. Uma criança pode reconhecer números, entender uma explicação e até saber resolver uma conta matemática. Mesmo assim, pode travar diante de uma atividade escolar.

Por quê?

Porque, além do conhecimento matemático, a tarefa exige outras habilidades:

    • Lembrar todas as etapas;
    • Ignorar distrações;
    • Organizar a sequência de ações;
    • Conferir se está fazendo corretamente;
    • Corrigir possíveis erros.

Quando a demanda executiva aumenta, algumas crianças conseguem demonstrar menos do que realmente sabem.

 

Quais são os principais componentes das Funções Executivas?

Embora existam diferentes modelos teóricos, três habilidades aparecem de forma consistente nas pesquisas.

Controle inibitório, é a capacidade de frear impulsos. Por exemplo, esperar a vez de falar, não interromper uma conversa ou resistir à vontade de abandonar uma atividade difícil.

Memória de trabalho, é a habilidade de manter informações temporariamente na mente enquanto realizamos uma tarefa. Quando uma professora diz: “Pegue o caderno, copie o exercício e responda às questões”, a criança precisa manter essas informações ativas enquanto executa cada etapa.

Flexibilidade cognitiva, é a capacidade de lidar com mudanças. Quando um plano muda, uma regra é alterada ou algo inesperado acontece, precisamos ajustar nosso comportamento. Essa adaptação depende da flexibilidade cognitiva.

O que isso tem a ver com o autismo?

Atualmente, sabemos que dificuldades em Funções Executivas estão relacionadas a muitas características frequentemente observadas no TEA.

Entre elas:

    • Rigidez comportamental;
    • Dificuldade para lidar com mudanças;
    • Comportamentos repetitivos;
    • Desafios de generalização;
    • Menor autonomia em algumas atividades do cotidiano.

Isso não significa que todas as pessoas autistas apresentem as mesmas dificuldades ou na mesma intensidade. No entanto, compreender o papel das Funções Executivas ajuda a interpretar muitos comportamentos de forma mais precisa.

 

Como perceber se a dificuldade pode ser executiva?

Alguns sinais costumam chamar atenção:

    • A criança consegue realizar a atividade quando recebe ajuda, mas não inicia sozinha.
    • Ela sabe responder quando alguém pergunta, mas se perde quando precisa fazer a tarefa de forma independente.
    • Consegue realizar em um ambiente, mas não em outro.
    • Melhora significativamente quando recebe apoio visual, checklist ou quando a atividade é dividida em etapas menores.

Nessas situações, vale a pena se perguntar:

“Ela realmente não sabe fazer ou está encontrando dificuldades para organizar o que já sabe?”

 

Como podemos ajudar?

A boa notícia é que as Funções Executivas podem ser apoiadas e ensinadas. Algumas estratégias simples já costumam produzir resultados importantes.

Divida tarefas grandes em pequenas etapas. Em vez de apresentar várias instruções de uma só vez, apresente uma etapa por vez.

Use apoios visuais. Rotinas visuais, checklists, agendas e modelos ajudam a reduzir a carga sobre a memória de trabalho.

Torne o planejamento visível. Muitas crianças se beneficiam quando conseguem enxergar claramente o que precisam fazer, o que já fizeram e o que ainda falta concluir.

Ensine estratégias explicitamente. Não basta esperar que a criança desenvolva essas habilidades sozinha.

Ela pode aprender estratégias como:

    • Plano A e Plano B;
    • Grande problema ou pequeno problema;
    • Meta → Plano → Fazer → Checar.

Essas ferramentas ajudam a desenvolver autonomia e flexibilidade ao longo do tempo.

 

O que as pesquisas mostram?

Estudos recentes indicam que dificuldades executivas estão associadas à adaptação escolar, à autonomia e à participação social de crianças autistas.

Pesquisadores têm observado que intervenções mais eficazes não se concentram apenas em treinar habilidades cognitivas isoladas, mas em ensinar estratégias práticas que possam ser utilizadas na escola, em casa e em situações reais do cotidiano.

O objetivo final não é apenas melhorar o desempenho em uma tarefa específica, mas ampliar a independência da criança em diferentes contextos.

 

Conclusão

Quando uma criança autista apresenta dificuldades para iniciar, organizar ou concluir uma atividade, nem sempre estamos diante de uma falta de conhecimento.

Muitas vezes, o desafio está nas Funções Executivas: habilidades responsáveis por planejar, monitorar, adaptar e regular o comportamento.

Compreender essa diferença pode mudar completamente a forma como interpretamos dificuldades, planejamos intervenções e oferecemos apoio.

Afinal, em muitos casos, a pergunta mais importante não é “ela sabe fazer?”, mas sim “o que está dificultando que ela consiga mostrar o que sabe?”.

 

Autor do post:

Me. Amanda de Oliveira – Psicóloga (CRP: 13/9360), Pós Graduada em Clínica Analítico Comportamental, mestre em Psicologia Social.

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