Lendo as Entrelinhas do Mundo Social: Como Desenvolver a “Teoria da Mente” no Autismo

No centro dessa dinâmica está um conceito fascinante chamado Teoria da Mente (ToM). A Teoria da Mente nada mais é do que a nossa capacidade de atribuir estados mentais (como crenças, intenções, desejos e emoções) a nós mesmos e aos outros, usando essas informações para prever e explicar comportamentos.

Mas como essa habilidade se desenvolve no autismo? E, mais importante, como podemos ajudar a construí-la de forma ética, respeitosa e verdadeiramente útil para o indivíduo?

As Peças do Quebra-Cabeça: Cognição e Afeto

A Teoria da Mente não é um botão de “liga/desliga” que a pessoa simplesmente tem ou não tem. Ela é multidimensional e se divide em duas grandes frentes:

– ToM Cognitiva: Envolve entender o que o outro sabe ou pensa (intenções e crenças).

– ToM Afetiva: Envolve entender o que o outro sente e como as emoções funcionam.

O desenvolvimento dessas habilidades no autismo segue uma trajetória única e cheia de nuances. Por exemplo, adolescentes autistas frequentemente possuem uma excelente capacidade de compreender seus próprios estados mentais (uma perspectiva de primeira pessoa) e costumam ter um bom nível de consciência sobre emoções, especialmente as negativas.

O verdadeiro desafio surge na chamada “perspectiva de segunda ordem” (pensar sobre o que a pessoa A pensa que a pessoa B está sentindo) ou ao lidar com crenças falsas e desejos complexos. Muitas vezes, a pessoa autista possui um conhecimento descritivo das emoções (ela sabe o que é a tristeza ou a alegria na teoria), mas enfrenta barreiras no conhecimento explicativo, ou seja, tem dificuldade em conectar como um estado mental invisível causa um comportamento prático no mundo real.

Construindo Pontes com a Ciência Comportamental

A boa notícia é que essas habilidades não estão fora de alcance. A ciência comportamental, especialmente a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e suas vertentes modernas, tem desenvolvido estratégias robustas para promover a cognição social.

Em vez de focar apenas em comportamentos motores, as intervenções focam em habilidades precursoras, como o rastreamento do olhar, a atenção compartilhada e a imitação. Algumas das estratégias mais eficazes incluem:

– Video Modeling (Modelação por Vídeo): Uma técnica amplamente utilizada onde o indivíduo assiste a pequenos vídeos de pessoas demonstrando interações sociais adequadas (como oferecer ajuda ou iniciar uma conversa) e, em seguida, pratica essa habilidade.

– Teoria das Molduras Relacionais (RFT – Relational Frame Theory): Uma abordagem que ensina o indivíduo a compreender relações de perspectiva, como as diferenças entre “Eu e Você”, “Aqui e Ali”, “Agora e Depois”. Ao dominar essas molduras relacionais, a pessoa ganha ferramentas linguísticas para literalmente se colocar no lugar do outro.

– Treinamento de Habilidades Comportamentais (BST): Um pacote que envolve instruções, modelação, ensaio (role-play) e feedback, usado para ensinar regras sociais sofisticadas, como ser educado ao receber um presente indesejado.

O Grande Desafio: A Vida Real Fora da Clínica

Apesar do sucesso dessas intervenções no ambiente estruturado, existe um “calcanhar de Aquiles” na promoção da Teoria da Mente: a generalização.

Muitos estudos mostram que uma criança pode aprender perfeitamente a identificar uma emoção em um flashcard ou em um vídeo no consultório terapêutico. Contudo, quando ela vai para o pátio da escola (um ambiente caótico, barulhento e imprevisível), essa habilidade frequentemente não se sustenta. Além disso, os ganhos terapêuticos podem diminuir ao longo do tempo se não houver um suporte contínuo.

Isso nos mostra que treinar a Teoria da Mente não pode ser algo feito apenas em uma mesa de terapia. O ensino precisa envolver o ambiente natural do indivíduo, incorporando pais, professores e, de preferência, pares (outras crianças ou adolescentes) para que a habilidade se torne funcional e orgânica na vida diária.

Ética e Neurodiversidade: Ensinar Sem Mascarar

Ao abordarmos o ensino de habilidades sociais e Teoria da Mente, é impossível ignorar o debate ético. O movimento da neurodiversidade nos trouxe uma reflexão vital: o objetivo de qualquer intervenção comportamental nunca deve ser forçar a pessoa autista a parecer “neurotípica”.

O ensino coercitivo ou o foco exclusivo em fazer a pessoa suprimir seus traços naturais para se encaixar na sociedade tem consequências graves. Indivíduos que passam a vida “mascarando” (camouflaging) quem realmente são apresentam altos índices de estresse, exaustão mental e até sintomas de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) na vida adulta.

A ABA moderna e compassiva adota uma postura centrada no cliente. Se vamos ensinar alguém a decodificar uma ironia, a compreender uma emoção complexa ou a iniciar uma conversa, isso deve ser feito porque traz um benefício prático e significativo para aquela pessoa. O objetivo é aumentar a autonomia, promover relacionamentos genuínos escolhidos pelo próprio indivíduo e fortalecer seu bem-estar e autoaceitação, respeitando sempre sua identidade e dignidade.

Em última análise, ensinar a Teoria da Mente não é sobre consertar um déficit. É sobre fornecer uma chave de tradução para que a pessoa autista possa compartilhar seu mundo interior e compreender o mundo dos outros, construindo pontes de conexão em seus próprios termos.

Referências

Esposito, M., Fadda, R., Ricciardi, O., Mirizzi, P., Mazza, M., & Valenti, M. (2025). Ins and Outs of Applied Behavior Analysis (ABA) Intervention in Promoting Social Communicative Abilities and Theory of Mind in Children and Adolescents with ASD: A Systematic Review. Behavioral Sciences, 15(6), 814.

Fletcher-Watson, S., McConnell, F., Manola, E., & McConachie, H. (2014). Interventions based on the Theory of Mind cognitive model for autism spectrum disorder (ASD) (Review). Cochrane Database of Systematic Reviews, Issue 3. Art. No.: CD008785.

Fadda, R., Congiu, S., Doneddu, G., Carta, M., Piras, F., Gabbatore, I., & Bosco, F. M. (2024). Th.o.m.a.s.: new insights into theory of mind in adolescents with autism spectrum disorder. Frontiers in Psychology, 15:1461980.

Autor do post

Luiz Kennedy de Almeida Silva – Psicólogo (CRP:13/9162), Pedagogo especializado em Psicopedagogia, Coordenador ABA.

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