Quando falamos sobre autismo, é comum ouvir que a pessoa autista “não entende o que o outro sente” ou “não tem empatia”. Essa explicação é simplista, injusta e, muitas vezes, atrapalha mais do que ajuda. Um conceito importante para compreender melhor algumas dificuldades sociais no autismo é a Teoria da Mente.
A Teoria da Mente é a habilidade de perceber que outras pessoas têm pensamentos, desejos, emoções, intenções e conhecimentos diferentes dos nossos. Em outras palavras, é a capacidade de entender que o outro pode ver uma situação de forma diferente, pode não saber algo que eu sei ou pode agir com base em uma crença que não corresponde à realidade.
Por exemplo: uma criança vê que a mãe guardou um brinquedo dentro de uma caixa. Depois, enquanto a mãe sai da sala, outra pessoa troca o brinquedo de lugar. Quando a mãe volta, onde ela vai procurar o brinquedo?
Para responder corretamente, a criança precisa entender que a mãe não viu a troca. Ou seja, a mãe vai procurar no lugar onde ela acredita que o brinquedo está, mesmo que a criança saiba que ele foi mudado de lugar.
Esse tipo de compreensão envolve uma habilidade social sofisticada: separar o que eu sei daquilo que o outro sabe.
No desenvolvimento infantil, essa habilidade costuma aparecer aos poucos. A criança começa a perceber intenções, emoções, preferências, enganos, mentiras, ironias e regras sociais implícitas. Nada disso nasce pronto. É uma construção.
No autismo, essa construção pode acontecer de forma diferente. Algumas crianças podem ter dificuldade para perceber pistas sociais sutis, como expressão facial, tom de voz, gestos, mudanças no olhar ou intenções não ditas. Outras podem compreender bem algumas situações, mas se confundir quando o contexto social é mais abstrato, rápido ou cheio de informações ao mesmo tempo.
Isso não significa falta de afeto. Também não significa ausência de empatia.
Aqui está um ponto essencial: dificuldade em interpretar o estado mental do outro não é a mesma coisa que não se importar com o outro.
Uma criança autista pode se importar profundamente, mas não saber como demonstrar. Pode perceber que alguém está triste, mas não entender o motivo. Pode querer ajudar, mas escolher uma resposta social que pareça inadequada para os outros. Pode sentir muito, mas não conseguir organizar verbalmente aquilo que sente ou percebe.
Por isso, quando reduzimos tudo a “ele não tem empatia”, perdemos a chance de observar melhor, ensinar melhor e acolher melhor.
Na prática clínica e escolar, a Teoria da Mente pode aparecer em situações como:
- dificuldade para entender que o colega não quer brincar naquele momento;
- dificuldade para perceber que uma fala pode magoar outra pessoa;
- dificuldade para compreender ironias, indiretas ou piadas;
- dificuldade para explicar o próprio ponto de vista;
- dificuldade para entender que outra pessoa pode ter uma informação diferente;
- dificuldade para prever como o outro pode reagir.
Mas o caminho não é forçar a criança a “parecer neurotípica”. O caminho é ensinar repertórios sociais de forma clara, respeitosa e funcional.
Isso pode incluir histórias sociais, dramatizações, leitura de imagens, identificação de emoções, conversas sobre diferentes pontos de vista, uso de recursos visuais, análise de situações reais e ensino de comunicação funcional.
A pergunta principal não deve ser:
“Como fazer essa criança se comportar como as outras?”
A pergunta mais importante é:
“Como ajudar essa criança a compreender melhor o mundo social sem desrespeitar sua forma de perceber, sentir e se comunicar?”
A Teoria da Mente nos ajuda a entender parte das dificuldades sociais no autismo. Mas ela não explica tudo. O autismo não pode ser reduzido a uma falha de compreensão do outro.
Nos últimos anos, novas discussões vêm ampliando esse olhar. Uma delas é a ideia de que a dificuldade de compreensão social não acontece apenas da pessoa autista para a pessoa não autista. Muitas vezes, pessoas não autistas também têm dificuldade de compreender a forma como pessoas autistas sentem, pensam e se comunicam.
Esse será o tema da nossa próxima conversa: o problema da dupla empatia.
Porque entender o autismo exige mais do que ensinar a criança a entender o outro. Também exige que nós, adultos, profissionais, familiares e educadores, estejamos dispostos a entender melhor a criança.

Autor do post:
Bruna Araújo – Pedagoga, especialista em Análise do Comportamento Aplicada e Coordenadora ABA.





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